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Uma economia simples

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Numa troca de email’s sobre economia, eu escrevi a seguinte estória para esclarecer os efeitos da inflação e da desvalorização cambial.

“Pense num país que é uma ilha e toda a produção da sua economia é derivada de um único produto:  o coco.
Os cocos e coqueiros fornecem fibras que são utilizadas para a confecção de roupas e placas que revestem casas e carros. E o coco fornece uma pastilha de carvão superativado que permite a construção de motores e processadores de computador. E uma culinária saborosa é feita a partir do coco.

Mas como ninguém conhece este país, não há turistas para conhecerem suas belas praias (e mesmo quem achou o país, enjoou de tanto comer coco). O país não recebe receitas vindas do turismo. A ilha é auto-suficiente, e por isto não importa e nem exporta nada. E a população tem um controle de natalidade curioso: o coco tem o efeito de prolongar a vida e fazer nascer uma nova criança na medida que outra pessoa morre. A população não cresce.

Fundada a nossa República, vamos pensar em situações que poderiam tirar a felicidade de nossos felizes amigos.

Se um dia, por causa de uma nova doença, o país precise comprar vacinas da França, como poderá pagar, se ele não exporta nada e nem recebe turistas?  Como obter dólares para pagar pelas vacinas. Se elas não forem doadas, como nosso país poderá comprá-las?A saída é fazer alguma exportação e obter as receitas. Mas se a produção interna é suficiente apenas para o consumo interno, como poderá exportar alguma coisa? O país terá de produzir além do consumo interno. Uma saída é um aumento da produtividade. Este ganho de produtividade pode vir de duas alternativas. A primeira é com investimentos que elevem a tecnologia da produção e permitam o aumento da produtividade do trabalho e do capital. Mas isto levaria tempo e as pessoas estão morrendo hoje.

A outra saída seria uma mágica que criaria este ganho de produtividade da noite para o dia. O que é um ganho de produtividade? Não é produzir mais com um custo menor? Então, como seria possível obter este ganho de produtividade? Os custos de produção industrial já estão dados, e seus preços se alteram com a dinâmica do mercado, onde eu posso atuar então? Você cria inflação! (Ou a mesma coisa: desvaloriza o câmbio!). Como assim? Você precisa criar um excedente exportável, mas a produção interna só dá conta do consumo interno. Então, a inflação tem o seguinte efeito: ela aos poucos vai reduzindo o valor real dos salários, já que o salário irá comprar cada vez menos. Mas como os produtos terão seus preços reajustados antes dos salários, o custo com os salários diminui. Ou seja, o  custo menor de salários provoca um “ganho”  produtividade.

Mas como este ganho de produtividade vira excedente exportável? Com o salário comprando cada vez menos devido à inflação, a população terá seu consumo reduzido. A diferença entre a produção total e consumo reduzido pela inflação é o excedente que poderá ser exportado. A população comprará menos devido à inflação, criando uma produção excedente que será exportado (supondo que o mundo queira comprar os produtos da ilha). Mas e se a ilha quisesse não sofrer inflação, como ela poderia ter o aumento de produtividade? Ela teria de fazer investimentos. E se  tudo se origina do coco, e a produção é apenas o suficiente para o consumo interno, eles precisariam que os cocos que vão para o consumo pessoal virem máquinas, ou seja, as pessoas precisariam consumir menos e poupar mais. A ilha precisa que os cocos destinados a fazer bens de consumo sejam destinadas à fabricação de máquinas e novas técnicas de produção.

Sem a poupança (redução no consumo do coco) não há liberação de coco que viabilizará o investimento. Aqui fica a seguinte questão: que mecanismos poderiam ser adotados para incentivar a poupança interna? E como fazer para atrair poupança externa?”. E um ponto importante que surgiu depois: a inflação e a desvalorização cambial tem um efeito perverso sobre a distribuição de renda e usurpa a poupança das famílias mais pobres.

Written by Rogerio Ferreira

01/11/2010 at 23:37

Editorial “O Estadão”

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A necessidade de pensar no futuro

O Estado de S. Paulo – 18/11/2009
 
Na entrevista que o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore deu à Agência Estado ? reproduzida em nossa edição de segunda-feira ?, há argumentos que merecem ser meditados, pois trazem uma visão diferente da que predomina no governo.

Os operadores do mercado futuro foram muito criticados por preverem uma curva de juros tida como exagerada em face da elevação da taxa Selic em 2010. Na realidade, antecipavam uma atuação do Banco Central movida por fatos que, até lá, poderão desencadear uma retomada da inflação, forçando-o a elevar ou não aquela taxa.

Há duas coisas que geram muita dúvida: a evolução da taxa cambial e a condução da política fiscal do governo central. A valorização do real ante o dólar é, atualmente, um fator de contenção dos preços. Provavelmente continuará a ter esse efeito em 2010, embora medidas mais drásticas possam ser tomadas para tentar reduzir a valorização.

Tudo indica que os gastos excessivos do governo continuarão a marcar um ano de disputa eleitoral, mas com efeito retardado sobre a alta de preços. De qualquer maneira, o mercado futuro inclui um prêmio de risco nas suas previsões.

As autoridades monetárias dificilmente terão força, num ano eleitoral, de adotar as medidas preventivas para evitar uma inflação que provavelmente só se deverá elevar em 2011.

Outros fatores justificariam, certamente, uma atitude preventiva. O mais evidente seria uma taxa de crescimento acima do potencial econômico. Já se está falando de uma taxa de crescimento do PIB de 8%, anualizada com base no quarto trimestre deste ano, e o governo tentará um crescimento superior a 5% no próximo ano, mas sem dispor de investimentos suficientes para atingir essa meta. O descasamento entre a demanda e a oferta trará tensões inflacionárias que em 2010 poderão ser mascaradas pelo aumento das importações, mas que aparecerão no ano seguinte.

Pastore mostra-se cético quanto ao efeito do IOF de 2% sobre as entradas de alguns capitais externos. Segundo ele, seria mais importante cuidar do déficit em conta corrente, que, no momento em que os EUA abandonarem o juro zero, vai ter de ser mais bem observado e precisará ser coberto por maiores entradas de capitais de fora.

De um modo geral, Pastore nos convida a pensar no futuro próximo, em lugar de nos instalarmos no triunfalismo que predomina atualmente.

Written by Rogerio Ferreira

18/11/2009 at 14:15

Entrevista com Pastore: “Há um prêmio de risco fiscal na curva de juros”

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”Há um prêmio de risco fiscal na curva de juros”

Ricardo Leopoldo – O Estado de S. Paulo – 16/11/2009

Caso o governo mantenha o atual nível de expansão fiscal em 2010, o Banco Central (BC)provavelmente deverá antecipar o movimento de aperto monetário no próximo ano, num horizonte mais curto do que o mercado imagina hoje. A avaliação é do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore. Em entrevista exclusiva à Agência Estado, Pastore mostra-se muito preocupado com o ritmo que a inflação poderá atingir em 2011, “porque a economia está crescendo acima do seu potencial”, o que pode levar a uma ação preventiva do BC no ano que vem. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Para onde vai o juro em 2010?

Há duas forças contrárias na determinação da inflação. Uma delas é a força muito grande que existe na direção da valorização do real. Tanto ela é muito grande que o governo está extremamente preocupado. De outro lado, a economia vem crescendo com rapidez. O ministro da Fazenda falou que o Brasil cresceu no terceiro trimestre de 8% a 10% anualizados. O presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) se referiu a um crescimento muito forte. Os dois estão apontando para ritmos grandes (de expansão do nível de atividade), superiores ao crescimento potencial. Há um processo de estreitamento de hiato de PIB, o que não produz inflação imediatamente. Mas, depois de algum tempo, isso produz. As diferenças de opiniões que vemos são as seguintes: o indivíduo “A” acha que isso tudo fecha o hiato do produto mais cedo, e outro indivíduo acredita que isso ocorrerá mais devagar. Cada um vem com uma aposta, com um ciclo de subida de taxas de juros. O que eu sei é que o Banco Central está atento a todas essas velocidades e números. No momento em que o BC tiver de agir, ele vai agir. Não há nenhuma previsão precisa sobre a magnitude da resultante dessas duas forças.

A consultoria que o senhor dirige prevê que a inflação deve ficar perto da meta de 4,5% em 2010. É coerente uma alta da Selic de quatro pontos porcentuais, como indica a curva de juros, num cenário de inflação sob controle para o próximo ano?

A inflação tem uma dinâmica. Ela pode acelerar mais ou menos. Dentro da curva de juros a termo há prêmios. Existe embutido o prêmio de inflação, de risco de mudança de governo, o (prêmio) relativo ao fato de que não tenha mais o presidente Henrique Meirelles no BC. Cada cabeça, cada sentença. Existem pessoas no mercado financeiro que olham para isso e fazem um cenário, enquanto outras produzem outros cenários… Mas todas essas pessoas fazem um só cenário para a política fiscal: ela está excessivamente expansionista. Isso só não é unânime no Ministério da Fazenda, porque não acha que é excessivamente expansionista. Não é por que o mundo entrou em recessão, que todo mundo usou política fiscal expansionista, que o Brasil terá de adotar esta política para seguir os outros. A nossa tinha de ser menos expansionista do que as demais, porque o Brasil não sofreu uma recessão do tamanho que foi registrado nos outros países. A política fiscal expansionista foi adotada para tirar a economia da recessão. Com a economia crescendo acima do seu potencial, o governo deveria estar na fase de saída da estratégia fiscal expansionista, pois deveria estar reduzindo o componente fiscal para dar liberdade ao componente monetário. O Ministério da Fazenda, contudo, não se conforma em retirar a expansão fiscal, pois quer mantê-la, porque talvez garanta um crescimento do PIB em 2010 não de 5,5%, mas talvez de 6%, o que é extremamente conveniente do ponto de vista eleitoral. Se continuar uma expansão fiscal como esta, a curva de juros a termo tem de estar mais inclinada. O presidente do BC, Henrique Meirelles, certamente não vai hostilizar os demais membros de governo, mas eu estou livre para falar o seguinte: o que possivelmente está acontecendo é que existe um prêmio de risco fiscal embutido na curva de juros. Segmentos do mercado olham para este prêmio fiscal, julgam que esta política fiscal é excessiva, pois coloca um risco inflacionário maior, e dizem que, se o governo não desiste da expansão fiscal mais forte, quem vai ter de fazer a tarefa de trazer a inflação à meta é o Banco Central, com o aumento da taxa de juros.

Alguns economistas que estiveram com o senhor recentemente afirmaram que o senhor teria dito que o BC poderia aumentar os juros já no fim do primeiro trimestre de 2010. Isso procede?

Essas opiniões são muito variáveis. Suponha que você descubra que tem de subir alfa pontos porcentuais das taxas de juros. Você tem a escolha de ficar atrás da curva, esperar que a inflação cresça, para depois começar a reagir ou agir de forma anterior, antes da curva. Os bancos centrais que se prezam operam a política monetária para manter a inflação próxima à meta provocando a menor volatilidade no PIB, para que a economia seja mais eficiente. Se o Banco Central esperar para subir a taxa de juros, a inflação vai para a expectativa de inflação, ela fica mais rígida e será necessário adotar um ciclo de subida de juros maior do que em outras circunstâncias. Caso o BC atue antes, ele vai agir para trazer a inflação mais perto da meta com uma taxa de juros menor, porque não terá de combater a subida das expectativas de inflação. Só que a decisão de saber se vai ter de subir os juros antes ou não depende de observar daqui até os próximos meses como evolui a atividade econômica. Se ela se exacerbar, o BC pode ser instado a querer subir os juros no primeiro trimestre. Caso contrário, ele pode esperar. Tudo isso pode acontecer. Depende muito das circunstâncias sobre qual é a velocidade de crescimento da economia. Se a política fiscal continuar expansionista, a grande probabilidade é de que a economia estará crescendo um pouco mais depressa, acima do potencial. Isso forçaria o BC a ter que subir antes a taxa de juros.

Antes significa em que período de 2010?

É difícil dizer quando, mas antes do que a média do mercado está pensando.

A média do mercado coloca que os juros voltarão a subir perto do final do primeiro semestre de 2010.

Essas opiniões são extremamente mutáveis. Há três semanas, essa visão era um pouco diferente. Há muitos anos eu fui ao Jockey Club e tive uma experiência muito desagradável: eu não consegui acertar uma única aposta e descobri que não gosto de corrida de cavalos por causa do caráter aleatório das apostas. Eu não estou em nenhuma instituição financeira não é porque não tenham me convidado. É que eu não gosto do compromisso de ter que fazer apostas firmes como vocês (jornalistas) gostam de ouvir. Eu quero ser propositalmente vago, porque esse tipo de pergunta requer que a gente aja desta forma.

O que é necessário para que a política fiscal retorne para um nível razoável de gastos?

O superávit primário saiu de 4% para 1,5% do PIB, o que representa um aumento de 2,5 pontos porcentuais do PIB de incentivo fiscal. Para estabilizar a relação dívida/PIB com as atuais taxas de juros e de crescimento econômico, o superávit primário precisaria ser maior do que o atual. Ou seja, a marca atual de superávit primário não é capaz de estabilizar a relação dívida/PIB. Alguém pode dizer que isso é temporário. Tudo bem, mas até por esse critério o superávit está baixo demais.

O superávit primário deveria atingir qual nível em 2010?

Um pouco maior do que 1,5% do PIB. A despesa de pessoal do governo central no fim de 2008 estava um pouco abaixo de 4,5% do PIB, mas hoje (dez meses depois) está por volta de 5% do PIB. No mesmo período, pode-se verificar um grande crescimento das despesas com benefícios da Previdência, que apresentaram estabilidade por todo o atual governo, mas subiram a partir do fim do ano passado. O item outras despesas de custeio e de capital, que engloba Bolsa-Família, seguro-desemprego e transferências, aumentou nos últimos dez meses. Se eu somar isso tudo, esses (gastos) vão de perto de 12,5% para 14% do PIB em menos de dez meses. Isso é uma alta enorme.

Para o próximo ano, o senhor avalia que o crescimento do PIB pode variar de 5% a 5,5% e a inflação ficar ao redor da meta de 4,5%?

Com o câmbio valorizando, a inflação fica na meta em 2010 e no fim do ano começa a aumentar o risco de inflação superior à meta em 2011. Como as defasagens da política monetária são longas e variáveis, essa inflação (maior) pode vir pouco antes ou pouco depois.

A preocupação do senhor para a inflação de 2011 é grande?

Claro que é grande. Não só minha, é de todos, porque a economia está crescendo acima do seu potencial.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse recentemente que os investimentos estão se recuperando e devem registrar um bom nível de expansão no próximo ano.

A taxa de investimento vai crescer bastante, mas não vai para 20% do PIB, porque nunca foi.

O aumento do IOF em 2% para aplicações internacionais em ações e renda fixa é inócuo?

O aumento do IOF não é a forma eficaz de fazer isso. A primeira coisa que é necessário saber é se o déficit de contas correntes está ficando grande demais e é preocupante. Como este déficit é o excesso de absorção sobre o PIB, (é relevante) reduzir o crescimento da absorção. Tira um pouco do incentivo fiscal. Em vez de a economia crescer 5,5%, vai crescer 4,8%, 5% e vai fazer um déficit na conta corrente menor. Em segundo lugar, se estiver entrando dólares demais, que se compre um pouco mais de reservas. Atualmente está muito forte o ingresso de recursos no Brasil porque o juro nos EUA está em zero. Mas uma hora vai subir e, quando isso ocorrer, é melhor ser pego com reservas mais altas do que mais baixas. Você não vai evitar que o real se valorize, mas vai valorizar um pouco menos. Você não vai evitar que o déficit de conta corrente cresça, mas ele vai se expandir um pouco menos. Em vez de ter uma imensa festa sobre um instrumento ineficaz, tem uma festa menor em cima de alguns instrumentos mais eficazes que deixam a economia mais saudável.

Written by Rogerio Ferreira

16/11/2009 at 16:50

O abandono das metas de inflação

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Há um argumento contra o regime de metas de inflação que diz o seguinte: “o regime de metas de inflação não é eficiente para controlar a inflação. Mesmo com a credibilidade que o Banco Central adquiriu e não restando duvidas sobre o seu esforço para controlar a inflação, a meta de inflação só é alcançada com a utilização de altas taxas de juros”.

A base do argumento é simples. Mesmo que todos tenham a certeza de que o Banco Central fará de tudo para debelar a inflação, a credibilidade não é suficiente. O Banco Central precisa fazer uso de elevadas taxas de juros. Isto mostra a fragilidade do regime de metas de inflação.

Dois comentários sobre isto.

Primeiro. O regime de metas de inflação se apóia em regras claras conhecidas pela sociedade. Se o conhecimento destas regras pela sociedade não é suficiente para controlar a inflação sem fazer uso de altas de juros, a substituição do regime de metas de inflação por outro arranjo que não faça uso de regras claras ou não explicite compromisso com a estabilidade terá menor credibilidade ainda. Isto poderá ter efeitos negativos sobre a economia.

Segundo. A crítica mordaz sempre é direcionada à política monetária. Nada se diz sobre a política fiscal, a estrutura dos gastos públicos nem mesmo o superávit fiscal. Não questiona qual poderia ser o rumo da política monetária caso a política fiscal fosse diferente. Nem mesmo os efeitos da política fiscal sobre os juros ou o câmbio.

Mais uma vez é fácil atacar a política monetária que não baixa os juros e não interfere no câmbio, e condenar o capital financeiro. Mas estes mesmos se calam diante dos rumos da política fiscal.

Estes mesmos deveriam ler a entrevista do Samuel Pessoa ao Estadão. É necessário se desapegar de resultados de curto-prazo e parar de perseguir a meta equivocada do “Brasil-Potência”. Mas fazer isto não ganha eleição, seja para a situação ou para a oposição. Todos querem ser o grande redentor.

Written by Rogerio Ferreira

09/11/2009 at 12:06

Debate sobre o câmbio: um museu de grandes novidades…

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“Um importante resultado de finanças internacionais é o da trindade inconsistente: um país não pode ter simultaneamente liberdade dos fluxos internacionais de capitais, controle sobre a taxa de juro, e sobre a taxa de câmbio. Se um país pratica o regime de meta de inflação – segundo o qual a taxa de juro deve ser gerenciada de forma a fazer a inflação futura convergir para uma meta – , ele não pode pretender controlar a taxa de câmbio. Se tentasse fixar o câmbio, movimentos de arbitragem financeira (compra barato e vende caro) frustariam tal objetivo.

Mas qual é a taxa de câmbio ideal? Não é incomum, como ocorre hoje no Brasil, que objetivos distintos levem a diferentes respostas. Para o controle da inflação, quanto mais baixa a taxa de câmbio melhor. Para o saldo do balanço comercial, quanto mais alta melhor. Ou seja, ainda que se pudesse controlar a taxa de câmbio, provavelmente não haveria consenso sobre qual ela deveria ser. De qualquer forma, tal discussão não é relevante, porque não é possível controlar a taxa de câmbio real, que é a que importa.

A literatura sobre taxas de câmbio mostra que os movimentos conjuntos da taxa nominal de câmbio e dos índices de preços tendem a gerar uma convergência de longo prazo para uma taxa de câmbio real de equilíbrio. O equilíbrio de longo prazo da taxa de câmbio real é algo determinado por parâmetros fundamentais da economia, sobre a maior parte dos quais os bancos centrais não têm controle. Assim, tudo o que os bancos centrais podem fazer é intervir nesse processo de convergência, procurando reduzir a volatilidade. Quando erram a mão, tentando por exemplo manter um câmbio real muito apreciado em relação ao equilíbrio para baixar a inflação, como fizemos antes de 1999, o resultado é uma grande desvalorização. Quando tentam manter um câmbio real excessivamente depreciado para gerar elevados saldos comerciais, como fizemos na década de 80, o resultado é uma aceleração inflacionária. O que então deve e pode fazer o Banco Central do Brasil (BCB) frente a atual apreciação cambial?”

Trecho de um artigo do prof. Marcio Garcia escrito em 2003 (O Câmbio e o Banco Central Valor Econômico 15/05/03)


O professor Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, publicou um artigo chamado “O câmbio e o equilíbrio macroeconômico” no Estadão de Hoje (03/11/2009).


E o prof. Fernando Holanda Barbosa escreveu um artigo mostrando que a taxa de câmbio real de equilíbrio de longo prazo não é constante, mas varia ao longo do tempo.

A Paridade do Poder de Compra: existe um quebra-cabeça?

Fernando de Holanda Barbosa

Estudos Econômicos, Vol 39 No3

Written by Rogerio Ferreira

03/11/2009 at 16:45

Mais uma vez o ajuste fiscal

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Hoje alguns economistas colocam o debate sobre o câmbio de forma dramática, e fazem isto usando uma técnica básica de dramaturgia.

Nada melhor para fazer um grande herói do que a existência de um grande vilão.

E o vilão é o câmbio.

Na visão destes economistas, a valorização do real afeta a indústria nacional duplamente. Aquela parte da indústria nacional que exporta perde mercado lá fora por não ter preços competitivos, e aquela que produz para o mercado externo não consegue competir com os produtos importados.

Esta seria a tragédia da indústria nacional.

Se no passado o país teve de combater o dragão da inflação, hoje o grande mal a ser combatido é a valorização do real frente ao dólar.

A solução desta situação passaria por reverter a tendência do câmbio, e para isto seria necessário conter o volume de capital estrangeiro que entra no país. Então devemos criar um fundo de estabilização cambial e adotar o controle de capitais.

O objetivo seria adotar a postura da China, que possui uma moeda altamente desvalorizada e um grande volume de exportações (curioso que estes mesmos economistas diziam que deveríamos também seguir o modelo argentino, mas de repente pararam de falar da Argentina…).

Mas o que está fábula esconde é o nome e a face do verdadeiro vilão. O gasto público é o grande vilão.

Um dos pilares do modelo chinês e do sudeste asiático é a elevada taxa de poupança. E no Brasil o setor público deve, através de razoável superávit nominal, contribuir fortemente para a elevação da taxa de poupança.

Tentar depreciar o câmbio sem sofrer pressões inflacionárias passa pelo ajuste fiscal e redução dos gastos públicos.

Esta frase simples é ignorada pelos economistas heterodoxos que defendem intervenção no câmbio.

É mais fácil acusar os defensores do câmbio flutuante de serviçais do capital financeiro do que assumir a defesa explícita do ajuste fiscal.

Num país em que o lobby dos exportadores e da Fiesp tem muita força e todos sempre querem uma “ajudinha” do Estado, não seria interessante esvaziar o cofre do governo.  E em ano eleitoral, nenhum candidato quer arcar com os custos de um ajuste fiscal. E muito menos quer fazer isto no início de mandato.

Então, muitos economistas que acusam o câmbio e o capital financeiro de vilania, sem citar o gasto público como o principal vilão, também estão defendendo os seus interesses, e que curiosamente não seriam os mesmos da nação num “sentido histórico” (como os heterodoxos gostam de dizer).

Para garantir um lugar ao sol, vale qualquer pirotecnia teórica para tentar afetar o câmbio sem fazer o ajuste fiscal e não pressionar a inflação, mesmo que passe por caminhos absurdos.

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Aqui seguem o endereço de alguns artigos que exploram e explicam melhor estas questões envolvendo o câmbio.

Artigo do prof. Ilan Goldfajn

“Debate sobre câmbio e intervenção” (O Estado de São Paulo e O Globo, 20 de março de 2007 )

Neste artigo o prof. Ilan Goldfajn comenta sobre as intervenções esterilizadas, a China e a inflação na Rússia e na Argentina. E termina recomendando o trivial: redução dos gastos públicos para depreciar o câmbio e reduzir os juros.

Alguns artigos do Marcio Garcia sobre a questão cambial:

Há alternativa à política cambial?, Valor Econômico (25/09/09)

Neste artigo é feito uma conjectura sobre a tentativa de se reverter a depreciação do real a partir de intervenções não esterilizadas. É mostrado como este caminho pode comprometer o sistema de metas de inflação. E é mostrada a nossa diferença com a China e semelhança com a Argentina.

Intervenções Cambiais do Banco Central, Valor Econômico (28/08/2009)

Este artigo fala sobre intervenções esterilizadas e não esterilizadas, as duas diferentes formas de intervenção esterilizada: sinalização e equilíbrio de portifólio.

Tratamento Inacabado, Valor Econômico (31/07/2009)

Artigo que relata que sem grandes ajustes estruturais, continuaremos a ter investimento e crescimento baixo e juros altos.

Controle de Entrada de Capitais, Valor Econômico (03/07/2009)

Limites do Possível, Valor Econômico (13/03/2009)

Written by Rogerio Ferreira

27/10/2009 at 01:39

Temendo o espelho

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No seu recente artigo no Valor Econômico (23/10/09), o professor Oreiro e o seu fiel escudeiro Luiz Fernando de Paula, dão sequência à sua saga quixotesca de defender a sua proposta de “Fundo de Estabilização Cambial” (FEC).

O FEC seria o nó górdio a ser desatado para reverter a tendência de apreciação cambial.

E para viabilizar este fundo seriam necessárias duas medidas: ajuste fiscal e controle de capitais. Resumidamente esta é a proposta dos nossos cavaleiros errantes.

No referido artigo temos uma mudança de estilo dos autores que, a começar pelo título, tentam fazer uso de um suposto sarcasmo.

O artigo começa por uma frágil discussão metodológica. Mas ali o professor Oreiro já reconhece o equívoco de sua discussão anterior sobre ortodoxia, e devolve o título de ortodoxo aos seus verdadeiros donos.

E segue fazendo uma caricatura daquilo que seria a teoria neoclássica ou a visão ortodoxo-liberal (outro termo inventado para talvez dizer que ele também é ortodoxo, só que não um liberal).

Nas palavras dele, o pensamento ortodoxo trabalha com um sistema fechado, com agentes racionais passivos e desprovidos de criatividade. Um sistema incapaz de compreender as nuances e não-linearidades da realidade. Este “relativismo absoluto” é um argumento defensivo. E leva a discussão para um terreno pantanoso, de difícil saída, onde tudo é válido.

Mas mesmo assim ele quer nos convencer que derrotou o seu primeiro gigante, quando sabemos que não passa de um moinho de vento. Mas continuemos como Sancho Pança, que apesar da desconfiança e do realismo, ainda segue o mestre idealista.

Após isto, nossos heróis seguem para travar a maior batalha de todas: demonstrar que o ajuste fiscal rigoroso não é a única medida necessária e suficiente para depreciar o câmbio e reduzir a taxa de juros.

E fazem isto usando um argumento repetido e já criticado.

Utilizam o seguinte raciocínio. Um maior superávit primário reduziria o risco país. Isto atrairia mais capital estrangeiro, fazendo o câmbio nominal se apreciar mais. E aqui vem uma sutileza no raciocínio. A contração da demanda agregada provocada pelo maior superávit teria um efeito bem defasado sobre a inflação. Esta defasagem levaria o câmbio real a se apreciar mais ainda, tendo um efeito nefasto sobre o balanço de pagamentos e a indústria nacional.

Para evitar este efeito do maior superávit primário sobre o câmbio e o balanço de pagamentos, o Brasil deveria adotar o controle de capitais e criar o FEC.

O raciocínio acima se apóia em dois pontos, o risco-país e a defasagem do efeito da contração da demanda sobre a inflação.

O risco-país, como já foi demonstrado, está reduzido e não afugenta mais os investidores, pois não estamos mais em 2002 ou 2003. Do contrário, com a regular redução do superavit primário, o capital estrangeiro deveria estar em fuga neste momento.

E sobre a inflação, a adoção de uma medida contracionista através da elevação do superávit primário, cria redução da demanda por parte do governo e ao mesmo tempo teremos uma maior oferta de produtos importados a preços menores.

São duas forças atuando sobre a mesma variável. Isto poderia acelerar a queda dos preços. O efeito da oferta de produtos importados parece que foi desconsiderado.

E este FEC só tem sentido se for precedido por enorme acúmulo de superávit nominal. A criação de um fundo soberano deve ser posterior ao surgimento do superávit nominal.

O controle de capitais é temido pelos ortodoxos justamente por aquilo os pós keynesianos dizem que os agentes racionais não possuem: criatividade. Muitas formas serão criadas para burlar este bloqueio. E esta medida prejudicará aqueles que não tem acesso aos sofisticados mercados financeiros. É uma medida ineficiente e de efeito regressivo, pois prejudica os pequenos empresários, ao dificultar o acesso às fontes de financiamento externo.

O ajuste fiscal rigoroso, objetivando alcançar superávits nominais acompanhados de reduções dos gastos públicos, seria uma medida eficaz e sem distorções para atuar sobre o câmbio e os juros.

E qual é a razão de tanto esforço em negar a suficiência do ajuste fiscal? O pós keynesianismo vive uma crise de identidade, por isto tantos comportamentos erráticos.

A crise de identidade pós keynesiana passa pelos seguintes fatos: depois de bradarem contra os juros altos, o capital especulativo, o câmbio apreciado e outras palavras de ordem do gênero, os pós keynesianos perceberam que a única solução efetiva para o quadro macroeconômico passa por um feroz ajuste das contas públicas e redução dos gastos públicos.

Mas esta é uma medida ortodoxa. E reconhecer isto significa assumir uma identidade que eles querem negar. E daí eles vivem o mesmo conflito do Dr. Jekyll e o Mr. Hyde, temendo se ver no espelho.

O pós keynesianismo nega a aceitar uma verdade básica da economia, seja ela um sistema fechado ou aberto, com agentes criativos ou não. Neste momento, somente o ajuste das contas públicas é a medida capaz de afetar as principais variáveis econômicas sem criar distorções ou encarecer o custo dos novos investimentos.

Mas o pós keynesianismo nega-se a assumir aquilo que eles mesmos anteviram. E como forma de negar esta “verdade ortodoxa”, criam e apóiam medidas inócuas e equivocadas como o controle de capitais e o FEC.

O nosso nobre Don Quixote nega-se a reconhecer que sua bela dama Dulcinea del Toboso não passa uma simples camponesa.

Isto é uma forma de diferenciação do discurso e construção de uma barreira que impede que inúmeros alunos destes ilustres professores vejam o óbvio: a necessidade única e imediata de uma política fiscal rigorosa.

E a estranha e descabida citação da estratégia agressiva de Myke Tyson, no meu entendimento, é um pedido para que as críticas a eles não sejam tão duras. É o apelo de quem já está na lona.

Written by Rogerio Ferreira

23/10/2009 at 05:00

Publicado em ajuste fiscal, cambio

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