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O poder de Pequim

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Folha de S. Paulo – 19/11/2009

A PRIMEIRA visita à China do presidente dos EUA, Barack Obama, chegou ao fim sem que o principal tema de divergência entre os dois países tenha conhecido qualquer avanço. O governo americano busca convencer Pequim da necessidade de abrir mão de um dos elementos centrais de sua política econômica: o enfraquecimento forçado da moeda chinesa, o yuan, atrelado ao dólar.

Ao aferrar-se a tal mecanismo, o governo chinês procura manter intocado, mesmo após a crise econômica mundial, o seu modelo de crescimento baseado em exportações. Com o yuan fraco em relação a outras moedas, seus produtos se tornam mais baratos e competitivos mundo afora.

Do ponto de vista dos prejudicados por essa política -as indústrias de outros países-, a situação vem se agravando desde o ano passado. Para tentar reanimar a própria economia, o banco central dos EUA zerou a taxa básica de juros, inundando o planeta de dólares. Assim, também as exportações americanas se beneficiaram com o barateamento relativo do dólar e, consequentemente, de seus produtos.

Mas o que a visita de Obama explicita é que medidas autônomas dos EUA já não são suficientes para gerir sua própria economia. A peregrinação de autoridades americanas ao país asiático explicita o novo balanço de poder global, e sua frequência deve aumentar nos próximos anos.

O modelo cambial chinês limita a eficácia da política monetária dos EUA -mais ainda se vier a ser copiado por outros países. Cabe indagar se a continuidade desse atrelamento entre dólar e yuan é do interesse de Pequim, pois o sistema só funciona quando a máquina de consumo e endividamento das famílias americanas funciona a pleno vapor.

Se os prognósticos acerca de uma recuperação lenta nos EUA se concretizarem, uma inflexão “para dentro” da economia chinesa será inevitável.

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Written by Rogerio Ferreira

19/11/2009 at 16:27

Debate sobre o câmbio: um museu de grandes novidades…

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“Um importante resultado de finanças internacionais é o da trindade inconsistente: um país não pode ter simultaneamente liberdade dos fluxos internacionais de capitais, controle sobre a taxa de juro, e sobre a taxa de câmbio. Se um país pratica o regime de meta de inflação – segundo o qual a taxa de juro deve ser gerenciada de forma a fazer a inflação futura convergir para uma meta – , ele não pode pretender controlar a taxa de câmbio. Se tentasse fixar o câmbio, movimentos de arbitragem financeira (compra barato e vende caro) frustariam tal objetivo.

Mas qual é a taxa de câmbio ideal? Não é incomum, como ocorre hoje no Brasil, que objetivos distintos levem a diferentes respostas. Para o controle da inflação, quanto mais baixa a taxa de câmbio melhor. Para o saldo do balanço comercial, quanto mais alta melhor. Ou seja, ainda que se pudesse controlar a taxa de câmbio, provavelmente não haveria consenso sobre qual ela deveria ser. De qualquer forma, tal discussão não é relevante, porque não é possível controlar a taxa de câmbio real, que é a que importa.

A literatura sobre taxas de câmbio mostra que os movimentos conjuntos da taxa nominal de câmbio e dos índices de preços tendem a gerar uma convergência de longo prazo para uma taxa de câmbio real de equilíbrio. O equilíbrio de longo prazo da taxa de câmbio real é algo determinado por parâmetros fundamentais da economia, sobre a maior parte dos quais os bancos centrais não têm controle. Assim, tudo o que os bancos centrais podem fazer é intervir nesse processo de convergência, procurando reduzir a volatilidade. Quando erram a mão, tentando por exemplo manter um câmbio real muito apreciado em relação ao equilíbrio para baixar a inflação, como fizemos antes de 1999, o resultado é uma grande desvalorização. Quando tentam manter um câmbio real excessivamente depreciado para gerar elevados saldos comerciais, como fizemos na década de 80, o resultado é uma aceleração inflacionária. O que então deve e pode fazer o Banco Central do Brasil (BCB) frente a atual apreciação cambial?”

Trecho de um artigo do prof. Marcio Garcia escrito em 2003 (O Câmbio e o Banco Central Valor Econômico 15/05/03)


O professor Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, publicou um artigo chamado “O câmbio e o equilíbrio macroeconômico” no Estadão de Hoje (03/11/2009).


E o prof. Fernando Holanda Barbosa escreveu um artigo mostrando que a taxa de câmbio real de equilíbrio de longo prazo não é constante, mas varia ao longo do tempo.

A Paridade do Poder de Compra: existe um quebra-cabeça?

Fernando de Holanda Barbosa

Estudos Econômicos, Vol 39 No3

Written by Rogerio Ferreira

03/11/2009 at 16:45

Cambio real X Formação Bruta Capital Fixo

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O gráfico abaixo contrasta a trajetória da taxa de câmbio real com o formação bruta de capital deflacionada.

A partir de 2002, à medida que o real se valorizava, vemos o volume da formação bruta de capital fixo se elevar.  A recente queda da formação bruta de capital fixo coincide com a desvalorização do real, no bojo da crise recente.

Numa primeira impressão, o período de maior apreciação cambial coincide com o maior volume de formação bruta de capital fixo.

Cambio X FbKf

Cambio X Formação Bruta Capital Fixo

IPEADATA

Séries:

Transformação de Taxa de câmbio – R$ / US$ – comercial – venda – fim período – R$ – BCB Boletim/BP – BM12_ERVF12

Capital fixo – formação bruta (deflator: IPCA) – R$(milhões) – IBGE/SCN 2000 Trim. – SCN4_FBKFN4

Fonte: Para 1991-1994: Sistema de Contas Nacionais Trimestrais Referência 1985.

Written by Rogerio Ferreira

31/10/2009 at 13:48

Publicado em cambio, macroeconomia

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A hora de reafirmar compromissos

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Estamos às vésperas de mais um processo eleitoral. E como em 2002, acontecerá sob a sombra de incertezas nos mercados, mesmo que as previsões apontem bons resultados em 2010.

Mas se em 2002, para acalmar e ganhar a confiança do mercado, o então candidato Lula assinou a “Carta ao Povo Brasileiro” e assumia compromissos com a estabilidade e o controle das contas públicas, neste processo eleitoral que se abre vemos que estes compromissos não serão lembrados.

O governo federal vem adotando medidas que colocam em dúvida o real cumprimento do superávit primário,  não se preocupando com a elevação da carga tributária e uma maior eficiência dos gastos públicos.

Esta frouxidão fiscal leva o Banco Central a um enorme esforço solitário.

Uma política fiscal frouxa força a política monetária a ser mais rigorosa.  E o resultado deverá ser uma elevação dos juros maior do que a necessária caso a política fiscal fosse mais responsável e coordenada com a política monetária.

Mas se há dúvidas do compromisso com o superávit primário, a situação se agrava com as possíveis alterações na Diretoria do Banco Central. Uma possível mudança da composição da Diretoria numa linha mais “desenvolvimentista” coloca em dúvidas também o compromisso com o controle da inflação.

E a recente medida de cobrança de IOF sobre investidores estrangeiros na bolsa de valores com o objetivo de conter a “bolha” na bolsa e tentar conter a tendência de valorização do real, revela a vontade do governo de intervir no câmbio.

A cobrança do IOF, além de se mostrar inócua para conter o câmbio, aumentar ainda mais a arrecadação, encarecer o financiamento ao investimento e forçar o Bacen a agir antes da hora e com maior rigor, pode ser um primeiro passo no sentido de controlar a entrada de capitais.

Observando estes fatos, vemos que o Governo segue paulatinamente desmontando o tripé que permitiu ao país sair sem grandes traumas desta crise: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação.

A única instituição que está fora do controle imediato do Governo é o Banco Central, que tem garantido, em última instância, o controle da inflação. Mas pode correr o risco de perder sua autonomia operacional e seu objetivo de controlar a inflação. Os possíveis nomes cotados para compor a Diretoria lançam fortes dúvidas sobre a manutenção deste objetivo.

O Governo, apoiado pelo bem organizado setor exportador brasileiro, elegeu um grande vilão: o câmbio. Apenas o câmbio seria o grande vilão ser enfrentado, que dificulta nossas exportações e elimina empregos aqui, através de importações de produtos mais baratos. E nada melhor para fazer um grande herói do que um grande vilão. Em salvação do país vem o Governo com o IOF.

Mas nenhuma palavra sobre a grande vilã desta história: a política fiscal frouxa do governo. Uma maior austeridade fiscal permitiria ao governo afrouxar os juros e afetar o câmbio. Mas isto, às vésperas da eleição presidencial, não interessa ao presidente Lula.

Se na “Carta ao Povo Brasileiro”, o candidato Lula acusava o presidente Fernando Henrique de populismo cambial em 1998 e de esconder da população a informação de que o real estava artificialmente valorizado, hoje a mesma acusação cabe ao presidente Lula. O seu populismo fiscal pode levar o país numa direção que coloca em dúvida a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade do crescimento.

As previsões nacionais e internacionais apontam numa forte recuperação e crescimento da economia brasileira. E este momento seria importante para reafirmar compromissos com a estabilidade e realizar ajustes necessários. Mas vemos o contrário disto. Os interesses eleitorais irão ditar os rumos do país.

Se o pragmatismo eleitoral de 2002 levou o então candidato Lula a assumir compromissos com a estabilidade macroeconômica e renunciar a artificialismos, em 2010 veremos o agora presidente Lula, em nome do mesmo pragmatismo eleitoral, esquecer estes compromissos.

Written by Rogerio Ferreira

22/10/2009 at 10:48