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Poupança e investimento

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Periodicamente o debate sobre a relação entre poupança e investimento sempre volta. Agora, por exemplo,  alguns discordam de existir no país uma insuficiência de poupança interna ou da importância da poupança externa.

Os textos abaixo indicam sucintamente alguns pontos conceituais importantes neste debate:

Macroeconomia Prática – Márcio G. P. Garcia

Duas perguntas – Alexandre Schwartsman (blog “A Mão Visível”)

Entrevista do Samuel Pessoa ao Estadão (postado no blog “A Mão Visível”)

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Written by Rogerio Ferreira

07/11/2009 at 17:15

A hora de reafirmar compromissos

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Estamos às vésperas de mais um processo eleitoral. E como em 2002, acontecerá sob a sombra de incertezas nos mercados, mesmo que as previsões apontem bons resultados em 2010.

Mas se em 2002, para acalmar e ganhar a confiança do mercado, o então candidato Lula assinou a “Carta ao Povo Brasileiro” e assumia compromissos com a estabilidade e o controle das contas públicas, neste processo eleitoral que se abre vemos que estes compromissos não serão lembrados.

O governo federal vem adotando medidas que colocam em dúvida o real cumprimento do superávit primário,  não se preocupando com a elevação da carga tributária e uma maior eficiência dos gastos públicos.

Esta frouxidão fiscal leva o Banco Central a um enorme esforço solitário.

Uma política fiscal frouxa força a política monetária a ser mais rigorosa.  E o resultado deverá ser uma elevação dos juros maior do que a necessária caso a política fiscal fosse mais responsável e coordenada com a política monetária.

Mas se há dúvidas do compromisso com o superávit primário, a situação se agrava com as possíveis alterações na Diretoria do Banco Central. Uma possível mudança da composição da Diretoria numa linha mais “desenvolvimentista” coloca em dúvidas também o compromisso com o controle da inflação.

E a recente medida de cobrança de IOF sobre investidores estrangeiros na bolsa de valores com o objetivo de conter a “bolha” na bolsa e tentar conter a tendência de valorização do real, revela a vontade do governo de intervir no câmbio.

A cobrança do IOF, além de se mostrar inócua para conter o câmbio, aumentar ainda mais a arrecadação, encarecer o financiamento ao investimento e forçar o Bacen a agir antes da hora e com maior rigor, pode ser um primeiro passo no sentido de controlar a entrada de capitais.

Observando estes fatos, vemos que o Governo segue paulatinamente desmontando o tripé que permitiu ao país sair sem grandes traumas desta crise: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação.

A única instituição que está fora do controle imediato do Governo é o Banco Central, que tem garantido, em última instância, o controle da inflação. Mas pode correr o risco de perder sua autonomia operacional e seu objetivo de controlar a inflação. Os possíveis nomes cotados para compor a Diretoria lançam fortes dúvidas sobre a manutenção deste objetivo.

O Governo, apoiado pelo bem organizado setor exportador brasileiro, elegeu um grande vilão: o câmbio. Apenas o câmbio seria o grande vilão ser enfrentado, que dificulta nossas exportações e elimina empregos aqui, através de importações de produtos mais baratos. E nada melhor para fazer um grande herói do que um grande vilão. Em salvação do país vem o Governo com o IOF.

Mas nenhuma palavra sobre a grande vilã desta história: a política fiscal frouxa do governo. Uma maior austeridade fiscal permitiria ao governo afrouxar os juros e afetar o câmbio. Mas isto, às vésperas da eleição presidencial, não interessa ao presidente Lula.

Se na “Carta ao Povo Brasileiro”, o candidato Lula acusava o presidente Fernando Henrique de populismo cambial em 1998 e de esconder da população a informação de que o real estava artificialmente valorizado, hoje a mesma acusação cabe ao presidente Lula. O seu populismo fiscal pode levar o país numa direção que coloca em dúvida a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade do crescimento.

As previsões nacionais e internacionais apontam numa forte recuperação e crescimento da economia brasileira. E este momento seria importante para reafirmar compromissos com a estabilidade e realizar ajustes necessários. Mas vemos o contrário disto. Os interesses eleitorais irão ditar os rumos do país.

Se o pragmatismo eleitoral de 2002 levou o então candidato Lula a assumir compromissos com a estabilidade macroeconômica e renunciar a artificialismos, em 2010 veremos o agora presidente Lula, em nome do mesmo pragmatismo eleitoral, esquecer estes compromissos.

Written by Rogerio Ferreira

22/10/2009 at 10:48

Resposta ao professor Oreiro

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Professor Oreiro,

o capital que está entrando no país não é de curto prazo. Ele quer participar do crescimento previsto para a economia no próximo período.

E com certeza ele é menos sensível ao diferencial da taxa de juros.

Pena que o professor Pastore escreveu isto depois que você escreveu seu artigo e o post anterior, pois iria te impedir de escrever alguns absurdos.

O senhor utilizou a suposição de mobilidade perfeita de capitais e diferencial da taxa de juros no seu post “Desonestidade intelectual e desespero da “ortodoxia” brasileira”.

Neste post o senhor afirma que a elevação de 1% no superávit primário apreciaria o câmbio, já que segundo as suas palavras: “o único risco para a economia brasileira teria sido afastado”. Isto reduziria a percepção de risco e atrairia ainda mais capitais externos.

Então a mobilidade perfeita de capitais e diferenciais de juros, quando você usa pode, quando os outros usam não pode?

Mas seguindo o seu raciocínio no referido post, deveríamos estar assistindo neste momento a uma fuga em massa de capitais e uma depreciação do câmbio. Pois a atual dinâmica da política fiscal, com regular redução do superávit primário, deveria elevar a percepção de risco do país e fuga de capitais.

Pergunta: o problema está na realidade ou no seu argumento?

Outra pergunta: se a mobilidade de capitais não é perfeita, há a necessidade então de se fazer o “controle abrangente de capitais”?

Então, a sua crítica equivocada ao modelo que utiliza a contração fiscal para possibilitar a redução da taxa de juros e depreciar o câmbio, é antes de tudo uma autocrítica. Reconheceu a contradição do seu argumento.

O Fundo de Estabilização só se torna interessante se for precedido por acúmulos de superávit nominal, e o esforço para a obtenção deste acúmulo é capaz de permitir a resultados interessantes sobre os juros e o câmbio. Não é dito que o senhor esqueceu-se do superávit, o debate é se o ajuste fiscal necessário para constituir o fundo não o tornaria supérfluo.

E quanto à afirmação do Pastore sobre a eficácia das intervenções esterilizadas, fica claro que ele fala em redução da velocidade da valorização cambial e não em reversão da tendência do câmbio, que é a discussão central. Não se pode concluir dali nada em favor da administração do câmbio ou controle de capitais. Aliás, ele ressalta o contrário disto.

E agora que o senhor está assistindo a casa cair, consegue criar uma das coisas mais absurdas que eu já vi.

O senhor inverteu o sentido em que é entendida a palavra ortodoxia. Discutir isto não salva em nada a sua proposta de fundo de estabilização, mas só ilumina o caminho absurdo que o senhor tomou, ao seguir pelo lado negro da força.

O senhor está utilizando do método que condena: desqualifica o oponente e não responde aos argumentos. Finalmente saiu do papel de eterna vitima, a viúva que vive lamentando porque Keynes não vive mais entre nós (aliás, vocês usam o Keynes como avalista de cada idéia mirabolante…).

O pensamento neoclássico prescinde da categoria “ortodoxia”. Nenhum postulado, teorema ou princípio da teoria neoclássica depende do conceito de ortodoxia. E muitas pesquisas que eram tachadas como heterodoxas foram tranquilamente absorvidas pela teoria neoclássica.

Mas o parâmetro para se avaliar o que é ortodoxia, caro Lord Sith, não é nenhuma tradição histórica milenar, ordem jedi, guerras clônicas ou ser “maioria” e “minoria”, e sim o “status quo” no presente.

O que foi ortodoxia no passado não necessariamente é ortodoxia hoje. Basta ler Kuhn, Popper ou Lakatos para ver como teorias surgem e se vão, pois toda verdade é sempre provisória.

Pode existir ortodoxia e heterodoxia mesmo no interior de grupos que não sejam predominantes na ciência. Por exemplo, existe o pensamento marxista ortodoxo e o heterodoxo. No pensamento pós keynesiano há os verticalistas e os horizontalistas, etc.

É uma questão de identificação. Pergunto: qual é o “status quo” na ciência econômica atualmente e nos últimos 140 anos?

Como chamar, na história da ciência, esta interrupção de 140 anos no domínio dos “economistas clássicos” sobre a ciência econômica? Seria o conto de fadas da Bela Adormecida, e o senhor Oreiro seria o príncipe encantado que faria o pensamento clássico despertar reivindicando o trono da ortodoxia após 100 anos de sono?

Ortodoxia não é uma definição do que é ciência, é um adjetivo. O pensamento neoclássico se constitui como ortodoxia não por causa de qualquer herança histórica ou teórica, mas pelo espaço que ele ocupa na produção acadêmica e condução de política econômica.

Não é a toa que o pensamento neoclássico também é chamado de mainstream economics…

Mais do que ler qualquer livro de sociologia do conhecimento ou filosofia da ciência, o senhor deveria ler um dicionário primeiro e uma tabuada de somar depois. Entenderia o significado de ortodoxia, a que ele se refere e poderia contar a quantidade de economistas, departamentos, jornais, livros e medidas que se guiam pela teoria neoclássica.

Os números não são para mostrar quem é maioria ou minoria, e sim mostrar qual é o “status quo” na ciência econômica, qual escola tem predominância.

A “economia política clássica” pertence a um “status quo” ou paradigma que já foi superado na avançar da ciência econômica, mesmo que ainda sejam referências importantes.

Não há tradição reta. Há o “status quo” ou o “estado da arte” na ciência, e a partir disto se define ortodoxia. Se forem relativizar tudo, somos todos heterodoxos, em todas as ciências. Todo mundo pensa diferente de todo mundo.

O debate não se resolve com autoproclamação.

Não adianta reivindicar para si o título de ortodoxo. Se ortodoxia, como o senhor diz, quer dizer pensamento reto ou idéias retas, isto só mostra o que o senhor não tem: retidão nas idéias.

E lembre-se de que na tradição Sith (aqueles que se enveredam pelo lado negro da força), há apenas dois Sith: mestre e aprendiz. E o aprendiz sempre elimina o mestre.

Atenciosamente,

Rogerio Ferreira

Written by Rogerio Ferreira

18/10/2009 at 16:22