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Câmbio alto é a solução?

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Marcio Garcia

Valor Econômico – 20/11/2009

Afirmou o ministro da Fazenda: “… com um câmbio a R$ 2,60, venceríamos todos. Venceríamos os chineses, a indústria coreana” (O Globo, 18/11/2009, página 21). O tom transcendente em que tal frase foi proferida, em um encontro de industriais, parecia conferir ao câmbio alto (depreciado) status semelhante ao da paz entre os homens ou ao do fim da fome; ninguém poderia ser contra tal objetivo. O câmbio depreciado é mesmo tão bom para a economia brasileira?

Isoladamente, o câmbio depreciado parece ótimo, pois amplia as exportações, a produção, o emprego e os lucros dos exportadores (ainda que esse aumento seja sempre esquecido quando empresários defendem o câmbio alto). O problema é que nada em economia, como na vida, ocorre isoladamente. Há sempre uma miríade de relações de causa e efeito entre variáveis econômicas que podem gerar, e frequentemente geram, resultados indesejáveis a partir de ações bem intencionadas.

Em primeiro lugar, cabe indagar como o governo poderia empurrar a taxa de câmbio para cima. A forma tradicional de desvalorizar a taxa de câmbio é o governo, normalmente via Banco Central (BC), comprar dólares até que o preço da moeda (a taxa de câmbio) suba ao nível pretendido. A contrapartida da compra de dólares pelo BC, que leva à depreciação da taxa de câmbio, é o aumento da base monetária e a diminuição da taxa de juros. Mas, a sistemática de metas para inflação, usada no Brasil, requer que se mantenha a taxa de juros em níveis próximos à meta Selic fixada pelo Copom, sob o risco de elevar a inflação. Assim, para impedir a queda da taxa Selic, com consequente aumento da inflação, o BC esteriliza o aumento da base monetária, via operações contracionistas de mercado aberto (venda de títulos públicos). A esterilização torna a compra de dólares pelo BC muito menos eficiente em desvalorizar o câmbio. Por isso, países que controlam a taxa de câmbio normalmente praticam, ao menos parcialmente, intervenções não-esterilizadas.

O problema é que a prática frequente de intervenções não-esterilizadas não é compatível com nosso regime de política monetária. Será que queremos abrir mão do regime de metas para inflação para voltarmos a um regime de câmbio administrado? Se a proposta for essa é necessário haver ampla discussão, informada por debates técnicos que esclareçam ao público os possíveis efeitos de tal mudança, sobretudo quanto à inflação futura. O que não se pode fazer é escamotear o abandono do sistema de metas de inflação caso se decida por intervenções não-esterilizadas.

Mas, por que a depreciação do câmbio poderia provocar inflação? A resposta pode ser vista por dois ângulos diferentes, mas umbilicalmente interligados: o dos preços e o das quantidades. É intuitivo o efeito que tem a depreciação do câmbio sobre os preços dos bens importados, majorando os preços internos. Menos intuitivo, mas igualmente importante, é o fato de que o câmbio depreciado torna os bens que exportamos, cujos preços são fixados em moeda estrangeira, mais caros em reais. Assim, tais bens também ficam mais caros internamente, como é o caso da carne, do açúcar, da soja e muitos outros.

A ótica das quantidades provê visão alternativa complementar. A depreciação cambial aumenta as exportações e diminui as importações. Ou seja, aumenta o PIB. Isto é desejável, mas até certo ponto. Caso o aumento das exportações leve o PIB para acima da capacidade produtiva da economia, o PIB potencial, a inflação se acelerará. Naturalmente, o PIB potencial também cresce. Mas, o crescimento do PIB potencial depende da taxa de investimento da economia, que, no Brasil, é muito baixa. Além disso, como tem salientado Affonso Celso Pastore, há uma relação muito alta entre importações e investimento. Nos períodos de câmbio apreciado ocorre muita importação de máquinas e equipamentos, fundamentais para a difusão de inovações tecnológicas com impactos positivos sobre a produtividade.

Mas a China não mantém uma taxa de câmbio artificialmente depreciada e é o país que mais cresce no mundo, sem inflação? Por que não podemos fazer o mesmo? Há, certamente, muitas diferenças entre a economia chinesa e a brasileira. Mas, a diferença mais relevante, no que tange à possibilidade de intervir na taxa de câmbio, aumentando as exportações e o crescimento do PIB, sem causar muita inflação, parece ser a elevadíssima taxa de poupança da economia chinesa. Como a taxa de poupança da China é mais do que o dobro da do Brasil, nosso espaço de manobra é muito mais reduzido. Basta olhar o que ocorreu com a Argentina, que tentou fazer política monetária com objetivo de manter o câmbio alto. Voltou a ter sério problema inflacionário, mascarado por estatísticas oficiais manipuladas nas quais ninguém acredita.

O aumento da taxa de poupança da economia brasileira é fundamental, não para podermos interferir no câmbio flutuante, mas para permitir maiores taxas de investimento e crescimento econômico. Para aumentar essa taxa, a maior contribuição que a política econômica poderia dar seria a de reduzir o forte crescimento do dispêndio público. A diminuição do crescimento do gasto público também ajudaria a depreciar a taxa real de câmbio. Infelizmente, desde 2005, o governo deixou de lado qualquer pretensão de controlar seus gastos e abraçou insensato programa de expansão dos gastos públicos de custeio, não havendo mais esperança que tal rumo seja mudado até 2011.

Mas nossos “policy-makers” permanecem sob forte pressão para “resolver” a questão cambial. Algumas medidas, como o IOF sobre entradas de capitais, estão sendo implementadas. Tais medidas não devem ter efeitos substanciais sobre a taxa de câmbio, embora tenham efeitos nocivos sobre o custo de capital das empresas, prejudicando o investimento produtivo. Medidas de liberalização cambial são boas “per se”, mas tampouco é claro que, se adotadas, causem significativa depreciação.

A pressão sobre o BC para desvalorizar o câmbio se parece com a do paciente que questiona seu médico: “Dr., sei que estou gordo, tenho vida sedentária, muito estresse, fumo e bebo. Não quero mudar isso. Mas quero um jeito de manter boa saúde.” O final desse filme é conhecido. Mudança de médico. Aí é que mora o perigo!

Márcio G. P. Garcia, PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve mensalmente às sextas-feiras

Written by Rogerio Ferreira

20/11/2009 at 10:56

Dólar e poder de competição

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Editorial – O Estado de S. Paulo – 19/11/2009

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto, cobrou do governo “medidas extraordinárias” para conter a valorização do real. Seus pares dificilmente o perdoariam se ele deixasse de apresentar essa cobrança ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, na abertura do 4º Encontro Nacional da Indústria, em Brasília, na terça-feira. O dólar barato encarece a exportação, barateia a importação e deixa o produtor nacional em séria desvantagem tanto no mercado externo quanto no interno. Reclamações têm partido não só de industriais, mas também de empresários do agronegócio. Monteiro Neto não se limitou, no entanto, a pedir medidas excepcionais. É preciso, segundo ele, atualizar a política de câmbio. O ministro Mantega prometeu medidas para tornar a indústria brasileira mais competitiva. Mas o governo, acrescentou, manterá o regime de flutuação cambial. Apesar disso, apontou a cotação de R$ 2,60 por dólar como ideal para a solução de todos os problemas. Esse foi o valor de equilíbrio recentemente indicado pelo banco de investimentos Goldman Sachs. Uma instituição privada pode fazer isso. Autoridades financeiras não costumam entrar nesse tipo de especulação.

O presidente da CNI atendeu à expectativa de seus companheiros, mas não obteve, em troca, mais que uma vaga promessa de novas ações a favor da indústria. No dia anterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa entrevista em Roma, havia sido ainda menos animador. Segundo ele, a solução “é evoluir tecnologicamente para ganhar dinheiro exportando mesmo com o dólar mais barato”. O governo, de acordo com Lula, já fez sua parte, com a cobrança do IOF sobre o capital aplicado em ações ou em papéis de renda fixa. Essa medida, acrescentou, “leva um tempo para surtir efeito”. Mas a taxação provavelmente não produzirá mais efeito do que produziu até hoje.

Mas a discussão está mal orientada. Empresários e funcionários do governo têm dado atenção insuficiente às questões mais importantes. Para começar, o dólar barato não é problema só do Brasil. A maior parte do mundo tem sido afetada pela depreciação das moedas americana e chinesa. O Brasil se diferencia de vários de seus concorrentes em outro aspecto. O câmbio é crucial para os produtores brasileiros, tanto do campo quanto da indústria, por causa de várias desvantagens competitivas de caráter crônico. A maior parte dessas desvantagens não está dentro das fábricas ou das fazendas. O presidente da CNI mencionou, em seu discurso, vários passos necessários para a elevação da competitividade, como a desoneração do investimento e a melhora do sistema de regulação.

A lista poderia ser muito mais longa e incluiria, naturalmente, a eliminação dos tributos sobre a exportação, a ampliação e a melhora da infraestrutura, a redução dos entraves burocráticos, a ampliação dos canais de financiamento, a elevação da segurança jurídica e a multiplicação de acordos de livre comércio com os grandes parceiros, sem preconceitos terceiro-mundistas.

O desajuste cambial seria possivelmente menor, no País, se os juros fossem mais baixos, mas para isso seria necessária uma gestão bem mais severa das contas públicas. Essa mudança não está na agenda.

Vários concorrentes do Brasil têm acesso preferencial aos mercados do mundo rico. Alguns negociaram ou preparam-se para negociar acordos comerciais com os EUA e com a Europa. Europeus e americanos estão cada vez mais próximos dos emergentes e isso foi demonstrado mais uma vez pela viagem do presidente Barack Obama à região, nos últimos dias. O Congresso americano ainda não ratificou o acordo com a Coreia, mas o fato de um acordo ter sido assinado pelos dois países deveria bastar para acender um sinal de alerta em Brasília.

Um sinal desse tipo deveria ter brilhado quando o senador Aloizio Mercadante, líder do PT, decidiu atribuir à falta de coragem política o atraso de reformas importantes. É inaceitável, disse ele, discursando na reunião da indústria, o fato de o Congresso não ter ainda votado a reforma tributária. Mas a bancada governista é majoritária nas duas Casas e ele é líder partidário. Ou faltam lâmpadas vermelhas, na capital, ou houve um efeito retardado do apagão.

Written by Rogerio Ferreira

19/11/2009 at 10:46

O abandono das metas de inflação

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Há um argumento contra o regime de metas de inflação que diz o seguinte: “o regime de metas de inflação não é eficiente para controlar a inflação. Mesmo com a credibilidade que o Banco Central adquiriu e não restando duvidas sobre o seu esforço para controlar a inflação, a meta de inflação só é alcançada com a utilização de altas taxas de juros”.

A base do argumento é simples. Mesmo que todos tenham a certeza de que o Banco Central fará de tudo para debelar a inflação, a credibilidade não é suficiente. O Banco Central precisa fazer uso de elevadas taxas de juros. Isto mostra a fragilidade do regime de metas de inflação.

Dois comentários sobre isto.

Primeiro. O regime de metas de inflação se apóia em regras claras conhecidas pela sociedade. Se o conhecimento destas regras pela sociedade não é suficiente para controlar a inflação sem fazer uso de altas de juros, a substituição do regime de metas de inflação por outro arranjo que não faça uso de regras claras ou não explicite compromisso com a estabilidade terá menor credibilidade ainda. Isto poderá ter efeitos negativos sobre a economia.

Segundo. A crítica mordaz sempre é direcionada à política monetária. Nada se diz sobre a política fiscal, a estrutura dos gastos públicos nem mesmo o superávit fiscal. Não questiona qual poderia ser o rumo da política monetária caso a política fiscal fosse diferente. Nem mesmo os efeitos da política fiscal sobre os juros ou o câmbio.

Mais uma vez é fácil atacar a política monetária que não baixa os juros e não interfere no câmbio, e condenar o capital financeiro. Mas estes mesmos se calam diante dos rumos da política fiscal.

Estes mesmos deveriam ler a entrevista do Samuel Pessoa ao Estadão. É necessário se desapegar de resultados de curto-prazo e parar de perseguir a meta equivocada do “Brasil-Potência”. Mas fazer isto não ganha eleição, seja para a situação ou para a oposição. Todos querem ser o grande redentor.

Written by Rogerio Ferreira

09/11/2009 at 12:06

Debate sobre o câmbio: um museu de grandes novidades…

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“Um importante resultado de finanças internacionais é o da trindade inconsistente: um país não pode ter simultaneamente liberdade dos fluxos internacionais de capitais, controle sobre a taxa de juro, e sobre a taxa de câmbio. Se um país pratica o regime de meta de inflação – segundo o qual a taxa de juro deve ser gerenciada de forma a fazer a inflação futura convergir para uma meta – , ele não pode pretender controlar a taxa de câmbio. Se tentasse fixar o câmbio, movimentos de arbitragem financeira (compra barato e vende caro) frustariam tal objetivo.

Mas qual é a taxa de câmbio ideal? Não é incomum, como ocorre hoje no Brasil, que objetivos distintos levem a diferentes respostas. Para o controle da inflação, quanto mais baixa a taxa de câmbio melhor. Para o saldo do balanço comercial, quanto mais alta melhor. Ou seja, ainda que se pudesse controlar a taxa de câmbio, provavelmente não haveria consenso sobre qual ela deveria ser. De qualquer forma, tal discussão não é relevante, porque não é possível controlar a taxa de câmbio real, que é a que importa.

A literatura sobre taxas de câmbio mostra que os movimentos conjuntos da taxa nominal de câmbio e dos índices de preços tendem a gerar uma convergência de longo prazo para uma taxa de câmbio real de equilíbrio. O equilíbrio de longo prazo da taxa de câmbio real é algo determinado por parâmetros fundamentais da economia, sobre a maior parte dos quais os bancos centrais não têm controle. Assim, tudo o que os bancos centrais podem fazer é intervir nesse processo de convergência, procurando reduzir a volatilidade. Quando erram a mão, tentando por exemplo manter um câmbio real muito apreciado em relação ao equilíbrio para baixar a inflação, como fizemos antes de 1999, o resultado é uma grande desvalorização. Quando tentam manter um câmbio real excessivamente depreciado para gerar elevados saldos comerciais, como fizemos na década de 80, o resultado é uma aceleração inflacionária. O que então deve e pode fazer o Banco Central do Brasil (BCB) frente a atual apreciação cambial?”

Trecho de um artigo do prof. Marcio Garcia escrito em 2003 (O Câmbio e o Banco Central Valor Econômico 15/05/03)


O professor Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, publicou um artigo chamado “O câmbio e o equilíbrio macroeconômico” no Estadão de Hoje (03/11/2009).


E o prof. Fernando Holanda Barbosa escreveu um artigo mostrando que a taxa de câmbio real de equilíbrio de longo prazo não é constante, mas varia ao longo do tempo.

A Paridade do Poder de Compra: existe um quebra-cabeça?

Fernando de Holanda Barbosa

Estudos Econômicos, Vol 39 No3

Written by Rogerio Ferreira

03/11/2009 at 16:45

Mais uma vez o ajuste fiscal

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Hoje alguns economistas colocam o debate sobre o câmbio de forma dramática, e fazem isto usando uma técnica básica de dramaturgia.

Nada melhor para fazer um grande herói do que a existência de um grande vilão.

E o vilão é o câmbio.

Na visão destes economistas, a valorização do real afeta a indústria nacional duplamente. Aquela parte da indústria nacional que exporta perde mercado lá fora por não ter preços competitivos, e aquela que produz para o mercado externo não consegue competir com os produtos importados.

Esta seria a tragédia da indústria nacional.

Se no passado o país teve de combater o dragão da inflação, hoje o grande mal a ser combatido é a valorização do real frente ao dólar.

A solução desta situação passaria por reverter a tendência do câmbio, e para isto seria necessário conter o volume de capital estrangeiro que entra no país. Então devemos criar um fundo de estabilização cambial e adotar o controle de capitais.

O objetivo seria adotar a postura da China, que possui uma moeda altamente desvalorizada e um grande volume de exportações (curioso que estes mesmos economistas diziam que deveríamos também seguir o modelo argentino, mas de repente pararam de falar da Argentina…).

Mas o que está fábula esconde é o nome e a face do verdadeiro vilão. O gasto público é o grande vilão.

Um dos pilares do modelo chinês e do sudeste asiático é a elevada taxa de poupança. E no Brasil o setor público deve, através de razoável superávit nominal, contribuir fortemente para a elevação da taxa de poupança.

Tentar depreciar o câmbio sem sofrer pressões inflacionárias passa pelo ajuste fiscal e redução dos gastos públicos.

Esta frase simples é ignorada pelos economistas heterodoxos que defendem intervenção no câmbio.

É mais fácil acusar os defensores do câmbio flutuante de serviçais do capital financeiro do que assumir a defesa explícita do ajuste fiscal.

Num país em que o lobby dos exportadores e da Fiesp tem muita força e todos sempre querem uma “ajudinha” do Estado, não seria interessante esvaziar o cofre do governo.  E em ano eleitoral, nenhum candidato quer arcar com os custos de um ajuste fiscal. E muito menos quer fazer isto no início de mandato.

Então, muitos economistas que acusam o câmbio e o capital financeiro de vilania, sem citar o gasto público como o principal vilão, também estão defendendo os seus interesses, e que curiosamente não seriam os mesmos da nação num “sentido histórico” (como os heterodoxos gostam de dizer).

Para garantir um lugar ao sol, vale qualquer pirotecnia teórica para tentar afetar o câmbio sem fazer o ajuste fiscal e não pressionar a inflação, mesmo que passe por caminhos absurdos.

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Aqui seguem o endereço de alguns artigos que exploram e explicam melhor estas questões envolvendo o câmbio.

Artigo do prof. Ilan Goldfajn

“Debate sobre câmbio e intervenção” (O Estado de São Paulo e O Globo, 20 de março de 2007 )

Neste artigo o prof. Ilan Goldfajn comenta sobre as intervenções esterilizadas, a China e a inflação na Rússia e na Argentina. E termina recomendando o trivial: redução dos gastos públicos para depreciar o câmbio e reduzir os juros.

Alguns artigos do Marcio Garcia sobre a questão cambial:

Há alternativa à política cambial?, Valor Econômico (25/09/09)

Neste artigo é feito uma conjectura sobre a tentativa de se reverter a depreciação do real a partir de intervenções não esterilizadas. É mostrado como este caminho pode comprometer o sistema de metas de inflação. E é mostrada a nossa diferença com a China e semelhança com a Argentina.

Intervenções Cambiais do Banco Central, Valor Econômico (28/08/2009)

Este artigo fala sobre intervenções esterilizadas e não esterilizadas, as duas diferentes formas de intervenção esterilizada: sinalização e equilíbrio de portifólio.

Tratamento Inacabado, Valor Econômico (31/07/2009)

Artigo que relata que sem grandes ajustes estruturais, continuaremos a ter investimento e crescimento baixo e juros altos.

Controle de Entrada de Capitais, Valor Econômico (03/07/2009)

Limites do Possível, Valor Econômico (13/03/2009)

Written by Rogerio Ferreira

27/10/2009 at 01:39

A hora de reafirmar compromissos

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Estamos às vésperas de mais um processo eleitoral. E como em 2002, acontecerá sob a sombra de incertezas nos mercados, mesmo que as previsões apontem bons resultados em 2010.

Mas se em 2002, para acalmar e ganhar a confiança do mercado, o então candidato Lula assinou a “Carta ao Povo Brasileiro” e assumia compromissos com a estabilidade e o controle das contas públicas, neste processo eleitoral que se abre vemos que estes compromissos não serão lembrados.

O governo federal vem adotando medidas que colocam em dúvida o real cumprimento do superávit primário,  não se preocupando com a elevação da carga tributária e uma maior eficiência dos gastos públicos.

Esta frouxidão fiscal leva o Banco Central a um enorme esforço solitário.

Uma política fiscal frouxa força a política monetária a ser mais rigorosa.  E o resultado deverá ser uma elevação dos juros maior do que a necessária caso a política fiscal fosse mais responsável e coordenada com a política monetária.

Mas se há dúvidas do compromisso com o superávit primário, a situação se agrava com as possíveis alterações na Diretoria do Banco Central. Uma possível mudança da composição da Diretoria numa linha mais “desenvolvimentista” coloca em dúvidas também o compromisso com o controle da inflação.

E a recente medida de cobrança de IOF sobre investidores estrangeiros na bolsa de valores com o objetivo de conter a “bolha” na bolsa e tentar conter a tendência de valorização do real, revela a vontade do governo de intervir no câmbio.

A cobrança do IOF, além de se mostrar inócua para conter o câmbio, aumentar ainda mais a arrecadação, encarecer o financiamento ao investimento e forçar o Bacen a agir antes da hora e com maior rigor, pode ser um primeiro passo no sentido de controlar a entrada de capitais.

Observando estes fatos, vemos que o Governo segue paulatinamente desmontando o tripé que permitiu ao país sair sem grandes traumas desta crise: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação.

A única instituição que está fora do controle imediato do Governo é o Banco Central, que tem garantido, em última instância, o controle da inflação. Mas pode correr o risco de perder sua autonomia operacional e seu objetivo de controlar a inflação. Os possíveis nomes cotados para compor a Diretoria lançam fortes dúvidas sobre a manutenção deste objetivo.

O Governo, apoiado pelo bem organizado setor exportador brasileiro, elegeu um grande vilão: o câmbio. Apenas o câmbio seria o grande vilão ser enfrentado, que dificulta nossas exportações e elimina empregos aqui, através de importações de produtos mais baratos. E nada melhor para fazer um grande herói do que um grande vilão. Em salvação do país vem o Governo com o IOF.

Mas nenhuma palavra sobre a grande vilã desta história: a política fiscal frouxa do governo. Uma maior austeridade fiscal permitiria ao governo afrouxar os juros e afetar o câmbio. Mas isto, às vésperas da eleição presidencial, não interessa ao presidente Lula.

Se na “Carta ao Povo Brasileiro”, o candidato Lula acusava o presidente Fernando Henrique de populismo cambial em 1998 e de esconder da população a informação de que o real estava artificialmente valorizado, hoje a mesma acusação cabe ao presidente Lula. O seu populismo fiscal pode levar o país numa direção que coloca em dúvida a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade do crescimento.

As previsões nacionais e internacionais apontam numa forte recuperação e crescimento da economia brasileira. E este momento seria importante para reafirmar compromissos com a estabilidade e realizar ajustes necessários. Mas vemos o contrário disto. Os interesses eleitorais irão ditar os rumos do país.

Se o pragmatismo eleitoral de 2002 levou o então candidato Lula a assumir compromissos com a estabilidade macroeconômica e renunciar a artificialismos, em 2010 veremos o agora presidente Lula, em nome do mesmo pragmatismo eleitoral, esquecer estes compromissos.

Written by Rogerio Ferreira

22/10/2009 at 10:48