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Dólar e poder de competição

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Editorial – O Estado de S. Paulo – 19/11/2009

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto, cobrou do governo “medidas extraordinárias” para conter a valorização do real. Seus pares dificilmente o perdoariam se ele deixasse de apresentar essa cobrança ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, na abertura do 4º Encontro Nacional da Indústria, em Brasília, na terça-feira. O dólar barato encarece a exportação, barateia a importação e deixa o produtor nacional em séria desvantagem tanto no mercado externo quanto no interno. Reclamações têm partido não só de industriais, mas também de empresários do agronegócio. Monteiro Neto não se limitou, no entanto, a pedir medidas excepcionais. É preciso, segundo ele, atualizar a política de câmbio. O ministro Mantega prometeu medidas para tornar a indústria brasileira mais competitiva. Mas o governo, acrescentou, manterá o regime de flutuação cambial. Apesar disso, apontou a cotação de R$ 2,60 por dólar como ideal para a solução de todos os problemas. Esse foi o valor de equilíbrio recentemente indicado pelo banco de investimentos Goldman Sachs. Uma instituição privada pode fazer isso. Autoridades financeiras não costumam entrar nesse tipo de especulação.

O presidente da CNI atendeu à expectativa de seus companheiros, mas não obteve, em troca, mais que uma vaga promessa de novas ações a favor da indústria. No dia anterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa entrevista em Roma, havia sido ainda menos animador. Segundo ele, a solução “é evoluir tecnologicamente para ganhar dinheiro exportando mesmo com o dólar mais barato”. O governo, de acordo com Lula, já fez sua parte, com a cobrança do IOF sobre o capital aplicado em ações ou em papéis de renda fixa. Essa medida, acrescentou, “leva um tempo para surtir efeito”. Mas a taxação provavelmente não produzirá mais efeito do que produziu até hoje.

Mas a discussão está mal orientada. Empresários e funcionários do governo têm dado atenção insuficiente às questões mais importantes. Para começar, o dólar barato não é problema só do Brasil. A maior parte do mundo tem sido afetada pela depreciação das moedas americana e chinesa. O Brasil se diferencia de vários de seus concorrentes em outro aspecto. O câmbio é crucial para os produtores brasileiros, tanto do campo quanto da indústria, por causa de várias desvantagens competitivas de caráter crônico. A maior parte dessas desvantagens não está dentro das fábricas ou das fazendas. O presidente da CNI mencionou, em seu discurso, vários passos necessários para a elevação da competitividade, como a desoneração do investimento e a melhora do sistema de regulação.

A lista poderia ser muito mais longa e incluiria, naturalmente, a eliminação dos tributos sobre a exportação, a ampliação e a melhora da infraestrutura, a redução dos entraves burocráticos, a ampliação dos canais de financiamento, a elevação da segurança jurídica e a multiplicação de acordos de livre comércio com os grandes parceiros, sem preconceitos terceiro-mundistas.

O desajuste cambial seria possivelmente menor, no País, se os juros fossem mais baixos, mas para isso seria necessária uma gestão bem mais severa das contas públicas. Essa mudança não está na agenda.

Vários concorrentes do Brasil têm acesso preferencial aos mercados do mundo rico. Alguns negociaram ou preparam-se para negociar acordos comerciais com os EUA e com a Europa. Europeus e americanos estão cada vez mais próximos dos emergentes e isso foi demonstrado mais uma vez pela viagem do presidente Barack Obama à região, nos últimos dias. O Congresso americano ainda não ratificou o acordo com a Coreia, mas o fato de um acordo ter sido assinado pelos dois países deveria bastar para acender um sinal de alerta em Brasília.

Um sinal desse tipo deveria ter brilhado quando o senador Aloizio Mercadante, líder do PT, decidiu atribuir à falta de coragem política o atraso de reformas importantes. É inaceitável, disse ele, discursando na reunião da indústria, o fato de o Congresso não ter ainda votado a reforma tributária. Mas a bancada governista é majoritária nas duas Casas e ele é líder partidário. Ou faltam lâmpadas vermelhas, na capital, ou houve um efeito retardado do apagão.

Written by Rogerio Ferreira

19/11/2009 at 10:46

Editorial “O Estadão”

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A necessidade de pensar no futuro

O Estado de S. Paulo – 18/11/2009
 
Na entrevista que o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore deu à Agência Estado ? reproduzida em nossa edição de segunda-feira ?, há argumentos que merecem ser meditados, pois trazem uma visão diferente da que predomina no governo.

Os operadores do mercado futuro foram muito criticados por preverem uma curva de juros tida como exagerada em face da elevação da taxa Selic em 2010. Na realidade, antecipavam uma atuação do Banco Central movida por fatos que, até lá, poderão desencadear uma retomada da inflação, forçando-o a elevar ou não aquela taxa.

Há duas coisas que geram muita dúvida: a evolução da taxa cambial e a condução da política fiscal do governo central. A valorização do real ante o dólar é, atualmente, um fator de contenção dos preços. Provavelmente continuará a ter esse efeito em 2010, embora medidas mais drásticas possam ser tomadas para tentar reduzir a valorização.

Tudo indica que os gastos excessivos do governo continuarão a marcar um ano de disputa eleitoral, mas com efeito retardado sobre a alta de preços. De qualquer maneira, o mercado futuro inclui um prêmio de risco nas suas previsões.

As autoridades monetárias dificilmente terão força, num ano eleitoral, de adotar as medidas preventivas para evitar uma inflação que provavelmente só se deverá elevar em 2011.

Outros fatores justificariam, certamente, uma atitude preventiva. O mais evidente seria uma taxa de crescimento acima do potencial econômico. Já se está falando de uma taxa de crescimento do PIB de 8%, anualizada com base no quarto trimestre deste ano, e o governo tentará um crescimento superior a 5% no próximo ano, mas sem dispor de investimentos suficientes para atingir essa meta. O descasamento entre a demanda e a oferta trará tensões inflacionárias que em 2010 poderão ser mascaradas pelo aumento das importações, mas que aparecerão no ano seguinte.

Pastore mostra-se cético quanto ao efeito do IOF de 2% sobre as entradas de alguns capitais externos. Segundo ele, seria mais importante cuidar do déficit em conta corrente, que, no momento em que os EUA abandonarem o juro zero, vai ter de ser mais bem observado e precisará ser coberto por maiores entradas de capitais de fora.

De um modo geral, Pastore nos convida a pensar no futuro próximo, em lugar de nos instalarmos no triunfalismo que predomina atualmente.

Written by Rogerio Ferreira

18/11/2009 at 14:15

Entrevista com Pastore: “Há um prêmio de risco fiscal na curva de juros”

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”Há um prêmio de risco fiscal na curva de juros”

Ricardo Leopoldo – O Estado de S. Paulo – 16/11/2009

Caso o governo mantenha o atual nível de expansão fiscal em 2010, o Banco Central (BC)provavelmente deverá antecipar o movimento de aperto monetário no próximo ano, num horizonte mais curto do que o mercado imagina hoje. A avaliação é do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore. Em entrevista exclusiva à Agência Estado, Pastore mostra-se muito preocupado com o ritmo que a inflação poderá atingir em 2011, “porque a economia está crescendo acima do seu potencial”, o que pode levar a uma ação preventiva do BC no ano que vem. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Para onde vai o juro em 2010?

Há duas forças contrárias na determinação da inflação. Uma delas é a força muito grande que existe na direção da valorização do real. Tanto ela é muito grande que o governo está extremamente preocupado. De outro lado, a economia vem crescendo com rapidez. O ministro da Fazenda falou que o Brasil cresceu no terceiro trimestre de 8% a 10% anualizados. O presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) se referiu a um crescimento muito forte. Os dois estão apontando para ritmos grandes (de expansão do nível de atividade), superiores ao crescimento potencial. Há um processo de estreitamento de hiato de PIB, o que não produz inflação imediatamente. Mas, depois de algum tempo, isso produz. As diferenças de opiniões que vemos são as seguintes: o indivíduo “A” acha que isso tudo fecha o hiato do produto mais cedo, e outro indivíduo acredita que isso ocorrerá mais devagar. Cada um vem com uma aposta, com um ciclo de subida de taxas de juros. O que eu sei é que o Banco Central está atento a todas essas velocidades e números. No momento em que o BC tiver de agir, ele vai agir. Não há nenhuma previsão precisa sobre a magnitude da resultante dessas duas forças.

A consultoria que o senhor dirige prevê que a inflação deve ficar perto da meta de 4,5% em 2010. É coerente uma alta da Selic de quatro pontos porcentuais, como indica a curva de juros, num cenário de inflação sob controle para o próximo ano?

A inflação tem uma dinâmica. Ela pode acelerar mais ou menos. Dentro da curva de juros a termo há prêmios. Existe embutido o prêmio de inflação, de risco de mudança de governo, o (prêmio) relativo ao fato de que não tenha mais o presidente Henrique Meirelles no BC. Cada cabeça, cada sentença. Existem pessoas no mercado financeiro que olham para isso e fazem um cenário, enquanto outras produzem outros cenários… Mas todas essas pessoas fazem um só cenário para a política fiscal: ela está excessivamente expansionista. Isso só não é unânime no Ministério da Fazenda, porque não acha que é excessivamente expansionista. Não é por que o mundo entrou em recessão, que todo mundo usou política fiscal expansionista, que o Brasil terá de adotar esta política para seguir os outros. A nossa tinha de ser menos expansionista do que as demais, porque o Brasil não sofreu uma recessão do tamanho que foi registrado nos outros países. A política fiscal expansionista foi adotada para tirar a economia da recessão. Com a economia crescendo acima do seu potencial, o governo deveria estar na fase de saída da estratégia fiscal expansionista, pois deveria estar reduzindo o componente fiscal para dar liberdade ao componente monetário. O Ministério da Fazenda, contudo, não se conforma em retirar a expansão fiscal, pois quer mantê-la, porque talvez garanta um crescimento do PIB em 2010 não de 5,5%, mas talvez de 6%, o que é extremamente conveniente do ponto de vista eleitoral. Se continuar uma expansão fiscal como esta, a curva de juros a termo tem de estar mais inclinada. O presidente do BC, Henrique Meirelles, certamente não vai hostilizar os demais membros de governo, mas eu estou livre para falar o seguinte: o que possivelmente está acontecendo é que existe um prêmio de risco fiscal embutido na curva de juros. Segmentos do mercado olham para este prêmio fiscal, julgam que esta política fiscal é excessiva, pois coloca um risco inflacionário maior, e dizem que, se o governo não desiste da expansão fiscal mais forte, quem vai ter de fazer a tarefa de trazer a inflação à meta é o Banco Central, com o aumento da taxa de juros.

Alguns economistas que estiveram com o senhor recentemente afirmaram que o senhor teria dito que o BC poderia aumentar os juros já no fim do primeiro trimestre de 2010. Isso procede?

Essas opiniões são muito variáveis. Suponha que você descubra que tem de subir alfa pontos porcentuais das taxas de juros. Você tem a escolha de ficar atrás da curva, esperar que a inflação cresça, para depois começar a reagir ou agir de forma anterior, antes da curva. Os bancos centrais que se prezam operam a política monetária para manter a inflação próxima à meta provocando a menor volatilidade no PIB, para que a economia seja mais eficiente. Se o Banco Central esperar para subir a taxa de juros, a inflação vai para a expectativa de inflação, ela fica mais rígida e será necessário adotar um ciclo de subida de juros maior do que em outras circunstâncias. Caso o BC atue antes, ele vai agir para trazer a inflação mais perto da meta com uma taxa de juros menor, porque não terá de combater a subida das expectativas de inflação. Só que a decisão de saber se vai ter de subir os juros antes ou não depende de observar daqui até os próximos meses como evolui a atividade econômica. Se ela se exacerbar, o BC pode ser instado a querer subir os juros no primeiro trimestre. Caso contrário, ele pode esperar. Tudo isso pode acontecer. Depende muito das circunstâncias sobre qual é a velocidade de crescimento da economia. Se a política fiscal continuar expansionista, a grande probabilidade é de que a economia estará crescendo um pouco mais depressa, acima do potencial. Isso forçaria o BC a ter que subir antes a taxa de juros.

Antes significa em que período de 2010?

É difícil dizer quando, mas antes do que a média do mercado está pensando.

A média do mercado coloca que os juros voltarão a subir perto do final do primeiro semestre de 2010.

Essas opiniões são extremamente mutáveis. Há três semanas, essa visão era um pouco diferente. Há muitos anos eu fui ao Jockey Club e tive uma experiência muito desagradável: eu não consegui acertar uma única aposta e descobri que não gosto de corrida de cavalos por causa do caráter aleatório das apostas. Eu não estou em nenhuma instituição financeira não é porque não tenham me convidado. É que eu não gosto do compromisso de ter que fazer apostas firmes como vocês (jornalistas) gostam de ouvir. Eu quero ser propositalmente vago, porque esse tipo de pergunta requer que a gente aja desta forma.

O que é necessário para que a política fiscal retorne para um nível razoável de gastos?

O superávit primário saiu de 4% para 1,5% do PIB, o que representa um aumento de 2,5 pontos porcentuais do PIB de incentivo fiscal. Para estabilizar a relação dívida/PIB com as atuais taxas de juros e de crescimento econômico, o superávit primário precisaria ser maior do que o atual. Ou seja, a marca atual de superávit primário não é capaz de estabilizar a relação dívida/PIB. Alguém pode dizer que isso é temporário. Tudo bem, mas até por esse critério o superávit está baixo demais.

O superávit primário deveria atingir qual nível em 2010?

Um pouco maior do que 1,5% do PIB. A despesa de pessoal do governo central no fim de 2008 estava um pouco abaixo de 4,5% do PIB, mas hoje (dez meses depois) está por volta de 5% do PIB. No mesmo período, pode-se verificar um grande crescimento das despesas com benefícios da Previdência, que apresentaram estabilidade por todo o atual governo, mas subiram a partir do fim do ano passado. O item outras despesas de custeio e de capital, que engloba Bolsa-Família, seguro-desemprego e transferências, aumentou nos últimos dez meses. Se eu somar isso tudo, esses (gastos) vão de perto de 12,5% para 14% do PIB em menos de dez meses. Isso é uma alta enorme.

Para o próximo ano, o senhor avalia que o crescimento do PIB pode variar de 5% a 5,5% e a inflação ficar ao redor da meta de 4,5%?

Com o câmbio valorizando, a inflação fica na meta em 2010 e no fim do ano começa a aumentar o risco de inflação superior à meta em 2011. Como as defasagens da política monetária são longas e variáveis, essa inflação (maior) pode vir pouco antes ou pouco depois.

A preocupação do senhor para a inflação de 2011 é grande?

Claro que é grande. Não só minha, é de todos, porque a economia está crescendo acima do seu potencial.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse recentemente que os investimentos estão se recuperando e devem registrar um bom nível de expansão no próximo ano.

A taxa de investimento vai crescer bastante, mas não vai para 20% do PIB, porque nunca foi.

O aumento do IOF em 2% para aplicações internacionais em ações e renda fixa é inócuo?

O aumento do IOF não é a forma eficaz de fazer isso. A primeira coisa que é necessário saber é se o déficit de contas correntes está ficando grande demais e é preocupante. Como este déficit é o excesso de absorção sobre o PIB, (é relevante) reduzir o crescimento da absorção. Tira um pouco do incentivo fiscal. Em vez de a economia crescer 5,5%, vai crescer 4,8%, 5% e vai fazer um déficit na conta corrente menor. Em segundo lugar, se estiver entrando dólares demais, que se compre um pouco mais de reservas. Atualmente está muito forte o ingresso de recursos no Brasil porque o juro nos EUA está em zero. Mas uma hora vai subir e, quando isso ocorrer, é melhor ser pego com reservas mais altas do que mais baixas. Você não vai evitar que o real se valorize, mas vai valorizar um pouco menos. Você não vai evitar que o déficit de conta corrente cresça, mas ele vai se expandir um pouco menos. Em vez de ter uma imensa festa sobre um instrumento ineficaz, tem uma festa menor em cima de alguns instrumentos mais eficazes que deixam a economia mais saudável.

Written by Rogerio Ferreira

16/11/2009 at 16:50

Artigo do Fábio Giambiagi sobre a previdência

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Disponibilizo aqui um artigo do Fábio Giambiagi que instiga uma séria reflexão sobre o futuro.

Em tempos que muitos defendem intervenção no câmbio supostamente para salvar os “empregos” no Brasil, e não usam a mesma incisividade para defender a redução do gasto público, é importante pensar o futuro motivado pelos resultados reais das decisões tomadas agora e não apenas pelas “boas intenções” que justificam estas mesmas decisões, ou seja, por quem efetivamente paga a conta e não apenas por quem se beneficia.

Frase infeliz

Fabio Giambiagi*

O Estado de S. Paulo – 02/11/2009

“O futuro me preocupa, porque é o lugar onde devo passar a maior parte da minha vida”

Woody Allen

Atribui-se a uma velha raposa do jornalismo engajado a máxima de que “não devemos deixar a realidade interferir nas nossas opiniões”. O titular da Secretaria de Política Econômica, Nelson Barbosa, está se revelando um adepto dessa escola. Alheio ao fato de que o resultado fiscal piora mês após mês, ele já tinha ocupado o noticiário com a sua opinião de que os analistas preocupados com o quadro fiscal estariam fazendo “terrorismo”. Recentemente, sem atentar para a dimensão dos problemas demográficos que o País tem pela frente, ele deu declarações no mesmo tom ao jornal Valor (16/10). Na entrevista, mesmo se declarando favorável a uma reforma previdenciária, esclareceu: “Mas sem jogar os velhinhos do penhasco, como sugerem alguns economistas.”

Talvez haja nessa frase um indício de por que as propostas, fiscalmente pouco cuidadosas (para usar uma expressão benigna), do senador Paulo Paim (PT-RS) conseguiram percorrer todo o trâmite legislativo no Congresso Nacional, impondo ao País o risco de que sejam aprovadas em plenário – nesse caso, exigindo do presidente da República o constrangimento do veto – sem que o processo tenha sido abortado no nascedouro pela assessoria técnica da Fazenda. Ora, uma das funções da Secretaria de Política Econômica é agir no sentido de barrar propostas que atentem contra a saúde fiscal.

Paradoxalmente, no Brasil, o ataque contra o Tesouro é liderado por um senador governista, enquanto a chefia da assessoria do Ministério da Fazenda faz denúncias sobre terrorismo e cria mitos sobre a previdência. Conheço pessoalmente todos os economistas relevantes que participam do debate previdenciário no Brasil e não se aplica a nenhum deles a crítica de que defenderiam suprimir direitos adquiridos ou, na hipérbole do secretário, “jogar velhinhos do penhasco”. Já a ameaça que paira sobre a fortaleza fiscal que o País manteve durante mais de dez anos é, ao contrário, algo muito concreto. É preciso encarar tal ameaça, em vez de lutar contra moinhos de vento.

Alguns dados ajudam a entender o que está em jogo para o futuro de nossos filhos. Primeiro, a idade com que as mulheres se aposentam pelo INSS, no meio urbano, por tempo de contribuição é, em média, de 51 anos. Segundo, o período durante o qual essas pessoas recebem a aposentadoria no País é de 29 anos, enquanto na média de 17 países da América Latina, objeto de pesquisa recente, o recebimento do benefício se dá por 21 anos (Rocha e Caetano, Texto para Discussão 1.331, Ipea, 2008). Terceiro, o número de mulheres aposentadas por tempo de contribuição no Brasil era de 300 mil em 1994 e hoje é de mais de 1 milhão. Quarto, no âmbito do INSS, no meio urbano e contando ambos os sexos, uma em cada quatro pessoas se aposentam antes dos 50 anos. Quinto, a população brasileira com 60 anos ou mais, hoje de 19 milhões de pessoas, estima-se que atinja 64 milhões em 2050. A lista de estatísticas preocupantes é extensa. Faria bem o País em pensar no que seremos daqui a algumas décadas.

O debate sobre o longo prazo no Brasil está fora de foco e declarações como as citadas não ajudam a esclarecer melhor a questão. Na Inglaterra, onde os diferentes agentes políticos têm clara percepção da diferença entre políticas de Estado e políticas de governo, a agenda da sustentabilidade ambiental, em cuja discussão o país está engajado – com vista ao posicionamento na Conferência de Copenhague, nas discussões no interior da União Europeia ou nos foros dos quais o país faz parte -, é eminentemente suprapartidária. Todos entendem que a sobrevivência do planeta diz respeito não aos trabalhistas ou aos “tories” em particular, e sim aos ingleses e à população como um todo.

Analogamente, se a Secretaria de Política Econômica é a favor de uma reforma, o que ela deveria fazer é favorecer uma discussão pública e aberta da questão previdenciária, dando à opinião pública os elementos técnicos para que cada cidadão forme a sua opinião e procurando coordenar os esforços em torno do assunto em favor de algum grau de entendimento.

Em vez disso, o que o secretário Nelson Barbosa faz com declarações como as dele é exatamente o oposto: obscurecer a compreensão do tema, justamente num debate que deveria nutrir-se de elementos objetivos. Alexis de Tocqueville dizia que “uma ideia verdadeira, mas complicada, tem sempre menos chance de sucesso do que uma que é falsa, porém simples”. Nada se presta mais a isso do que o tema das regras de aposentadoria, algo que interessa a todos e que é frequentemente objeto de tratamento apelativo – geralmente, por parte de parlamentares, mas não de autoridades.

Há três pontos básicos na discussão sobre a reforma previdenciária:

Haverá uma idade mínima para aposentadoria pelo INSS ou não?

A diferença entre homens e mulheres deve continuar a ser de cinco anos indefinidamente?

É correto que a pensão seja de 100% do benefício?

Nada disso se assemelha à imagem citada pelo secretário. O País precisa tratar do tema com seriedade. Diante da questão previdenciária, o que a Secretaria de Política Econômica tem a dizer? O que se espera que uma autoridade faça é que ajude a organizar o que talvez seja o debate mais difícil de fazer no Brasil, sobre uma das duas questões mais importantes – juntamente com a educação – para a definição de como será o País daqui a 20 ou 30 anos.

O que os técnicos da área devem fazer é mostrar à opinião pública o desafio colocado pelo envelhecimento da população. Que, diante da gravidade da questão, Nelson Barbosa se tenha manifestado nos termos em que o fez mostra, primeiro, quão distantes estamos do grau de amadurecimento político que existe em outros países; e, segundo, quão distante a Secretaria de Política Econômica atual está daquela que, já no governo Lula, era responsável pela agenda de reformas microeconômicas do País.

*Fabio Giambiagi é economista

Written by Rogerio Ferreira

15/11/2009 at 20:38

O abandono das metas de inflação

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Há um argumento contra o regime de metas de inflação que diz o seguinte: “o regime de metas de inflação não é eficiente para controlar a inflação. Mesmo com a credibilidade que o Banco Central adquiriu e não restando duvidas sobre o seu esforço para controlar a inflação, a meta de inflação só é alcançada com a utilização de altas taxas de juros”.

A base do argumento é simples. Mesmo que todos tenham a certeza de que o Banco Central fará de tudo para debelar a inflação, a credibilidade não é suficiente. O Banco Central precisa fazer uso de elevadas taxas de juros. Isto mostra a fragilidade do regime de metas de inflação.

Dois comentários sobre isto.

Primeiro. O regime de metas de inflação se apóia em regras claras conhecidas pela sociedade. Se o conhecimento destas regras pela sociedade não é suficiente para controlar a inflação sem fazer uso de altas de juros, a substituição do regime de metas de inflação por outro arranjo que não faça uso de regras claras ou não explicite compromisso com a estabilidade terá menor credibilidade ainda. Isto poderá ter efeitos negativos sobre a economia.

Segundo. A crítica mordaz sempre é direcionada à política monetária. Nada se diz sobre a política fiscal, a estrutura dos gastos públicos nem mesmo o superávit fiscal. Não questiona qual poderia ser o rumo da política monetária caso a política fiscal fosse diferente. Nem mesmo os efeitos da política fiscal sobre os juros ou o câmbio.

Mais uma vez é fácil atacar a política monetária que não baixa os juros e não interfere no câmbio, e condenar o capital financeiro. Mas estes mesmos se calam diante dos rumos da política fiscal.

Estes mesmos deveriam ler a entrevista do Samuel Pessoa ao Estadão. É necessário se desapegar de resultados de curto-prazo e parar de perseguir a meta equivocada do “Brasil-Potência”. Mas fazer isto não ganha eleição, seja para a situação ou para a oposição. Todos querem ser o grande redentor.

Written by Rogerio Ferreira

09/11/2009 at 12:06

Poupança e investimento

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Periodicamente o debate sobre a relação entre poupança e investimento sempre volta. Agora, por exemplo,  alguns discordam de existir no país uma insuficiência de poupança interna ou da importância da poupança externa.

Os textos abaixo indicam sucintamente alguns pontos conceituais importantes neste debate:

Macroeconomia Prática – Márcio G. P. Garcia

Duas perguntas – Alexandre Schwartsman (blog “A Mão Visível”)

Entrevista do Samuel Pessoa ao Estadão (postado no blog “A Mão Visível”)

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Written by Rogerio Ferreira

07/11/2009 at 17:15

Debate sobre o câmbio: um museu de grandes novidades…

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“Um importante resultado de finanças internacionais é o da trindade inconsistente: um país não pode ter simultaneamente liberdade dos fluxos internacionais de capitais, controle sobre a taxa de juro, e sobre a taxa de câmbio. Se um país pratica o regime de meta de inflação – segundo o qual a taxa de juro deve ser gerenciada de forma a fazer a inflação futura convergir para uma meta – , ele não pode pretender controlar a taxa de câmbio. Se tentasse fixar o câmbio, movimentos de arbitragem financeira (compra barato e vende caro) frustariam tal objetivo.

Mas qual é a taxa de câmbio ideal? Não é incomum, como ocorre hoje no Brasil, que objetivos distintos levem a diferentes respostas. Para o controle da inflação, quanto mais baixa a taxa de câmbio melhor. Para o saldo do balanço comercial, quanto mais alta melhor. Ou seja, ainda que se pudesse controlar a taxa de câmbio, provavelmente não haveria consenso sobre qual ela deveria ser. De qualquer forma, tal discussão não é relevante, porque não é possível controlar a taxa de câmbio real, que é a que importa.

A literatura sobre taxas de câmbio mostra que os movimentos conjuntos da taxa nominal de câmbio e dos índices de preços tendem a gerar uma convergência de longo prazo para uma taxa de câmbio real de equilíbrio. O equilíbrio de longo prazo da taxa de câmbio real é algo determinado por parâmetros fundamentais da economia, sobre a maior parte dos quais os bancos centrais não têm controle. Assim, tudo o que os bancos centrais podem fazer é intervir nesse processo de convergência, procurando reduzir a volatilidade. Quando erram a mão, tentando por exemplo manter um câmbio real muito apreciado em relação ao equilíbrio para baixar a inflação, como fizemos antes de 1999, o resultado é uma grande desvalorização. Quando tentam manter um câmbio real excessivamente depreciado para gerar elevados saldos comerciais, como fizemos na década de 80, o resultado é uma aceleração inflacionária. O que então deve e pode fazer o Banco Central do Brasil (BCB) frente a atual apreciação cambial?”

Trecho de um artigo do prof. Marcio Garcia escrito em 2003 (O Câmbio e o Banco Central Valor Econômico 15/05/03)


O professor Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, publicou um artigo chamado “O câmbio e o equilíbrio macroeconômico” no Estadão de Hoje (03/11/2009).


E o prof. Fernando Holanda Barbosa escreveu um artigo mostrando que a taxa de câmbio real de equilíbrio de longo prazo não é constante, mas varia ao longo do tempo.

A Paridade do Poder de Compra: existe um quebra-cabeça?

Fernando de Holanda Barbosa

Estudos Econômicos, Vol 39 No3

Written by Rogerio Ferreira

03/11/2009 at 16:45