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Archive for outubro 2009

Cambio real X Formação Bruta Capital Fixo

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O gráfico abaixo contrasta a trajetória da taxa de câmbio real com o formação bruta de capital deflacionada.

A partir de 2002, à medida que o real se valorizava, vemos o volume da formação bruta de capital fixo se elevar.  A recente queda da formação bruta de capital fixo coincide com a desvalorização do real, no bojo da crise recente.

Numa primeira impressão, o período de maior apreciação cambial coincide com o maior volume de formação bruta de capital fixo.

Cambio X FbKf

Cambio X Formação Bruta Capital Fixo

IPEADATA

Séries:

Transformação de Taxa de câmbio – R$ / US$ – comercial – venda – fim período – R$ – BCB Boletim/BP – BM12_ERVF12

Capital fixo – formação bruta (deflator: IPCA) – R$(milhões) – IBGE/SCN 2000 Trim. – SCN4_FBKFN4

Fonte: Para 1991-1994: Sistema de Contas Nacionais Trimestrais Referência 1985.

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Written by Rogerio Ferreira

31/10/2009 at 13:48

Publicado em cambio, macroeconomia

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Mais uma vez o ajuste fiscal

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Hoje alguns economistas colocam o debate sobre o câmbio de forma dramática, e fazem isto usando uma técnica básica de dramaturgia.

Nada melhor para fazer um grande herói do que a existência de um grande vilão.

E o vilão é o câmbio.

Na visão destes economistas, a valorização do real afeta a indústria nacional duplamente. Aquela parte da indústria nacional que exporta perde mercado lá fora por não ter preços competitivos, e aquela que produz para o mercado externo não consegue competir com os produtos importados.

Esta seria a tragédia da indústria nacional.

Se no passado o país teve de combater o dragão da inflação, hoje o grande mal a ser combatido é a valorização do real frente ao dólar.

A solução desta situação passaria por reverter a tendência do câmbio, e para isto seria necessário conter o volume de capital estrangeiro que entra no país. Então devemos criar um fundo de estabilização cambial e adotar o controle de capitais.

O objetivo seria adotar a postura da China, que possui uma moeda altamente desvalorizada e um grande volume de exportações (curioso que estes mesmos economistas diziam que deveríamos também seguir o modelo argentino, mas de repente pararam de falar da Argentina…).

Mas o que está fábula esconde é o nome e a face do verdadeiro vilão. O gasto público é o grande vilão.

Um dos pilares do modelo chinês e do sudeste asiático é a elevada taxa de poupança. E no Brasil o setor público deve, através de razoável superávit nominal, contribuir fortemente para a elevação da taxa de poupança.

Tentar depreciar o câmbio sem sofrer pressões inflacionárias passa pelo ajuste fiscal e redução dos gastos públicos.

Esta frase simples é ignorada pelos economistas heterodoxos que defendem intervenção no câmbio.

É mais fácil acusar os defensores do câmbio flutuante de serviçais do capital financeiro do que assumir a defesa explícita do ajuste fiscal.

Num país em que o lobby dos exportadores e da Fiesp tem muita força e todos sempre querem uma “ajudinha” do Estado, não seria interessante esvaziar o cofre do governo.  E em ano eleitoral, nenhum candidato quer arcar com os custos de um ajuste fiscal. E muito menos quer fazer isto no início de mandato.

Então, muitos economistas que acusam o câmbio e o capital financeiro de vilania, sem citar o gasto público como o principal vilão, também estão defendendo os seus interesses, e que curiosamente não seriam os mesmos da nação num “sentido histórico” (como os heterodoxos gostam de dizer).

Para garantir um lugar ao sol, vale qualquer pirotecnia teórica para tentar afetar o câmbio sem fazer o ajuste fiscal e não pressionar a inflação, mesmo que passe por caminhos absurdos.

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Aqui seguem o endereço de alguns artigos que exploram e explicam melhor estas questões envolvendo o câmbio.

Artigo do prof. Ilan Goldfajn

“Debate sobre câmbio e intervenção” (O Estado de São Paulo e O Globo, 20 de março de 2007 )

Neste artigo o prof. Ilan Goldfajn comenta sobre as intervenções esterilizadas, a China e a inflação na Rússia e na Argentina. E termina recomendando o trivial: redução dos gastos públicos para depreciar o câmbio e reduzir os juros.

Alguns artigos do Marcio Garcia sobre a questão cambial:

Há alternativa à política cambial?, Valor Econômico (25/09/09)

Neste artigo é feito uma conjectura sobre a tentativa de se reverter a depreciação do real a partir de intervenções não esterilizadas. É mostrado como este caminho pode comprometer o sistema de metas de inflação. E é mostrada a nossa diferença com a China e semelhança com a Argentina.

Intervenções Cambiais do Banco Central, Valor Econômico (28/08/2009)

Este artigo fala sobre intervenções esterilizadas e não esterilizadas, as duas diferentes formas de intervenção esterilizada: sinalização e equilíbrio de portifólio.

Tratamento Inacabado, Valor Econômico (31/07/2009)

Artigo que relata que sem grandes ajustes estruturais, continuaremos a ter investimento e crescimento baixo e juros altos.

Controle de Entrada de Capitais, Valor Econômico (03/07/2009)

Limites do Possível, Valor Econômico (13/03/2009)

Written by Rogerio Ferreira

27/10/2009 at 01:39

Temendo o espelho

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No seu recente artigo no Valor Econômico (23/10/09), o professor Oreiro e o seu fiel escudeiro Luiz Fernando de Paula, dão sequência à sua saga quixotesca de defender a sua proposta de “Fundo de Estabilização Cambial” (FEC).

O FEC seria o nó górdio a ser desatado para reverter a tendência de apreciação cambial.

E para viabilizar este fundo seriam necessárias duas medidas: ajuste fiscal e controle de capitais. Resumidamente esta é a proposta dos nossos cavaleiros errantes.

No referido artigo temos uma mudança de estilo dos autores que, a começar pelo título, tentam fazer uso de um suposto sarcasmo.

O artigo começa por uma frágil discussão metodológica. Mas ali o professor Oreiro já reconhece o equívoco de sua discussão anterior sobre ortodoxia, e devolve o título de ortodoxo aos seus verdadeiros donos.

E segue fazendo uma caricatura daquilo que seria a teoria neoclássica ou a visão ortodoxo-liberal (outro termo inventado para talvez dizer que ele também é ortodoxo, só que não um liberal).

Nas palavras dele, o pensamento ortodoxo trabalha com um sistema fechado, com agentes racionais passivos e desprovidos de criatividade. Um sistema incapaz de compreender as nuances e não-linearidades da realidade. Este “relativismo absoluto” é um argumento defensivo. E leva a discussão para um terreno pantanoso, de difícil saída, onde tudo é válido.

Mas mesmo assim ele quer nos convencer que derrotou o seu primeiro gigante, quando sabemos que não passa de um moinho de vento. Mas continuemos como Sancho Pança, que apesar da desconfiança e do realismo, ainda segue o mestre idealista.

Após isto, nossos heróis seguem para travar a maior batalha de todas: demonstrar que o ajuste fiscal rigoroso não é a única medida necessária e suficiente para depreciar o câmbio e reduzir a taxa de juros.

E fazem isto usando um argumento repetido e já criticado.

Utilizam o seguinte raciocínio. Um maior superávit primário reduziria o risco país. Isto atrairia mais capital estrangeiro, fazendo o câmbio nominal se apreciar mais. E aqui vem uma sutileza no raciocínio. A contração da demanda agregada provocada pelo maior superávit teria um efeito bem defasado sobre a inflação. Esta defasagem levaria o câmbio real a se apreciar mais ainda, tendo um efeito nefasto sobre o balanço de pagamentos e a indústria nacional.

Para evitar este efeito do maior superávit primário sobre o câmbio e o balanço de pagamentos, o Brasil deveria adotar o controle de capitais e criar o FEC.

O raciocínio acima se apóia em dois pontos, o risco-país e a defasagem do efeito da contração da demanda sobre a inflação.

O risco-país, como já foi demonstrado, está reduzido e não afugenta mais os investidores, pois não estamos mais em 2002 ou 2003. Do contrário, com a regular redução do superavit primário, o capital estrangeiro deveria estar em fuga neste momento.

E sobre a inflação, a adoção de uma medida contracionista através da elevação do superávit primário, cria redução da demanda por parte do governo e ao mesmo tempo teremos uma maior oferta de produtos importados a preços menores.

São duas forças atuando sobre a mesma variável. Isto poderia acelerar a queda dos preços. O efeito da oferta de produtos importados parece que foi desconsiderado.

E este FEC só tem sentido se for precedido por enorme acúmulo de superávit nominal. A criação de um fundo soberano deve ser posterior ao surgimento do superávit nominal.

O controle de capitais é temido pelos ortodoxos justamente por aquilo os pós keynesianos dizem que os agentes racionais não possuem: criatividade. Muitas formas serão criadas para burlar este bloqueio. E esta medida prejudicará aqueles que não tem acesso aos sofisticados mercados financeiros. É uma medida ineficiente e de efeito regressivo, pois prejudica os pequenos empresários, ao dificultar o acesso às fontes de financiamento externo.

O ajuste fiscal rigoroso, objetivando alcançar superávits nominais acompanhados de reduções dos gastos públicos, seria uma medida eficaz e sem distorções para atuar sobre o câmbio e os juros.

E qual é a razão de tanto esforço em negar a suficiência do ajuste fiscal? O pós keynesianismo vive uma crise de identidade, por isto tantos comportamentos erráticos.

A crise de identidade pós keynesiana passa pelos seguintes fatos: depois de bradarem contra os juros altos, o capital especulativo, o câmbio apreciado e outras palavras de ordem do gênero, os pós keynesianos perceberam que a única solução efetiva para o quadro macroeconômico passa por um feroz ajuste das contas públicas e redução dos gastos públicos.

Mas esta é uma medida ortodoxa. E reconhecer isto significa assumir uma identidade que eles querem negar. E daí eles vivem o mesmo conflito do Dr. Jekyll e o Mr. Hyde, temendo se ver no espelho.

O pós keynesianismo nega a aceitar uma verdade básica da economia, seja ela um sistema fechado ou aberto, com agentes criativos ou não. Neste momento, somente o ajuste das contas públicas é a medida capaz de afetar as principais variáveis econômicas sem criar distorções ou encarecer o custo dos novos investimentos.

Mas o pós keynesianismo nega-se a assumir aquilo que eles mesmos anteviram. E como forma de negar esta “verdade ortodoxa”, criam e apóiam medidas inócuas e equivocadas como o controle de capitais e o FEC.

O nosso nobre Don Quixote nega-se a reconhecer que sua bela dama Dulcinea del Toboso não passa uma simples camponesa.

Isto é uma forma de diferenciação do discurso e construção de uma barreira que impede que inúmeros alunos destes ilustres professores vejam o óbvio: a necessidade única e imediata de uma política fiscal rigorosa.

E a estranha e descabida citação da estratégia agressiva de Myke Tyson, no meu entendimento, é um pedido para que as críticas a eles não sejam tão duras. É o apelo de quem já está na lona.

Written by Rogerio Ferreira

23/10/2009 at 05:00

Publicado em ajuste fiscal, cambio

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A hora de reafirmar compromissos

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Estamos às vésperas de mais um processo eleitoral. E como em 2002, acontecerá sob a sombra de incertezas nos mercados, mesmo que as previsões apontem bons resultados em 2010.

Mas se em 2002, para acalmar e ganhar a confiança do mercado, o então candidato Lula assinou a “Carta ao Povo Brasileiro” e assumia compromissos com a estabilidade e o controle das contas públicas, neste processo eleitoral que se abre vemos que estes compromissos não serão lembrados.

O governo federal vem adotando medidas que colocam em dúvida o real cumprimento do superávit primário,  não se preocupando com a elevação da carga tributária e uma maior eficiência dos gastos públicos.

Esta frouxidão fiscal leva o Banco Central a um enorme esforço solitário.

Uma política fiscal frouxa força a política monetária a ser mais rigorosa.  E o resultado deverá ser uma elevação dos juros maior do que a necessária caso a política fiscal fosse mais responsável e coordenada com a política monetária.

Mas se há dúvidas do compromisso com o superávit primário, a situação se agrava com as possíveis alterações na Diretoria do Banco Central. Uma possível mudança da composição da Diretoria numa linha mais “desenvolvimentista” coloca em dúvidas também o compromisso com o controle da inflação.

E a recente medida de cobrança de IOF sobre investidores estrangeiros na bolsa de valores com o objetivo de conter a “bolha” na bolsa e tentar conter a tendência de valorização do real, revela a vontade do governo de intervir no câmbio.

A cobrança do IOF, além de se mostrar inócua para conter o câmbio, aumentar ainda mais a arrecadação, encarecer o financiamento ao investimento e forçar o Bacen a agir antes da hora e com maior rigor, pode ser um primeiro passo no sentido de controlar a entrada de capitais.

Observando estes fatos, vemos que o Governo segue paulatinamente desmontando o tripé que permitiu ao país sair sem grandes traumas desta crise: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação.

A única instituição que está fora do controle imediato do Governo é o Banco Central, que tem garantido, em última instância, o controle da inflação. Mas pode correr o risco de perder sua autonomia operacional e seu objetivo de controlar a inflação. Os possíveis nomes cotados para compor a Diretoria lançam fortes dúvidas sobre a manutenção deste objetivo.

O Governo, apoiado pelo bem organizado setor exportador brasileiro, elegeu um grande vilão: o câmbio. Apenas o câmbio seria o grande vilão ser enfrentado, que dificulta nossas exportações e elimina empregos aqui, através de importações de produtos mais baratos. E nada melhor para fazer um grande herói do que um grande vilão. Em salvação do país vem o Governo com o IOF.

Mas nenhuma palavra sobre a grande vilã desta história: a política fiscal frouxa do governo. Uma maior austeridade fiscal permitiria ao governo afrouxar os juros e afetar o câmbio. Mas isto, às vésperas da eleição presidencial, não interessa ao presidente Lula.

Se na “Carta ao Povo Brasileiro”, o candidato Lula acusava o presidente Fernando Henrique de populismo cambial em 1998 e de esconder da população a informação de que o real estava artificialmente valorizado, hoje a mesma acusação cabe ao presidente Lula. O seu populismo fiscal pode levar o país numa direção que coloca em dúvida a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade do crescimento.

As previsões nacionais e internacionais apontam numa forte recuperação e crescimento da economia brasileira. E este momento seria importante para reafirmar compromissos com a estabilidade e realizar ajustes necessários. Mas vemos o contrário disto. Os interesses eleitorais irão ditar os rumos do país.

Se o pragmatismo eleitoral de 2002 levou o então candidato Lula a assumir compromissos com a estabilidade macroeconômica e renunciar a artificialismos, em 2010 veremos o agora presidente Lula, em nome do mesmo pragmatismo eleitoral, esquecer estes compromissos.

Written by Rogerio Ferreira

22/10/2009 at 10:48

O coelho de alice

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O Alex fez a seguinte afirmação no post “Para fugir do Dr. Einstein“:

“Ou seja, se alguém quer enfraquecer o real, basta adotar uma política fiscal oposta à que temos posto em prática. É mais eficiente do que botar duas instituições governamentais batendo cabeça no mercado de câmbio e, principalmente, evitaria a visita ao Dr. Einstein.”

Então, se alguém quer resolver o problema do câmbio, está dado o caminho.

No que eu acompanho o blog dele, há uma posição clara em favor da flutuação do câmbio, ajuste fiscal e do regime de metas de inflação.

Na polêmica sobre o câmbio, o que se faz é mostrar é a fragilidade de certos argumentos para justificar sairmos do câmbio flutuante para o administrado.

Peço que digam onde entendi errado.

Mas agora o Oreiro surtou de vez. Agora ele parece o coelho do mundo de Alice, que vive correndo por estar sempre atrasado.

Na visão dele, temos poucos segundos de vida. Estamos caminhando para a morte cambial simonseniana (a frase do Simonsen era na época do câmbio fixo).

Fábricas estão sendo desmontadas, coreanos invadindo as nossas ruas através do contrabando, etc.

Mas eu não entendo, o próprio Oreiro fez esta afirmação:

“Nos últimos meses, não é o diferencial de juros que está apreciando o câmbio, mas o ingresso de capitais na bolsa de valores. Em breve, será o investimento no pré-sal.”

Pergunta: se as nossas fábricas estão perto de fecharem, nossas exportações irão a zero, nossa renda desaparecerá e o país não sairá da estagnação, o que o capital estrangeiro está indo fazer na bolsa? Comprar ações para vender sucata? Acho que não.

Written by Rogerio Ferreira

19/10/2009 at 17:22

Publicado em ajuste fiscal, cambio

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Resposta ao professor Oreiro

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Professor Oreiro,

o capital que está entrando no país não é de curto prazo. Ele quer participar do crescimento previsto para a economia no próximo período.

E com certeza ele é menos sensível ao diferencial da taxa de juros.

Pena que o professor Pastore escreveu isto depois que você escreveu seu artigo e o post anterior, pois iria te impedir de escrever alguns absurdos.

O senhor utilizou a suposição de mobilidade perfeita de capitais e diferencial da taxa de juros no seu post “Desonestidade intelectual e desespero da “ortodoxia” brasileira”.

Neste post o senhor afirma que a elevação de 1% no superávit primário apreciaria o câmbio, já que segundo as suas palavras: “o único risco para a economia brasileira teria sido afastado”. Isto reduziria a percepção de risco e atrairia ainda mais capitais externos.

Então a mobilidade perfeita de capitais e diferenciais de juros, quando você usa pode, quando os outros usam não pode?

Mas seguindo o seu raciocínio no referido post, deveríamos estar assistindo neste momento a uma fuga em massa de capitais e uma depreciação do câmbio. Pois a atual dinâmica da política fiscal, com regular redução do superávit primário, deveria elevar a percepção de risco do país e fuga de capitais.

Pergunta: o problema está na realidade ou no seu argumento?

Outra pergunta: se a mobilidade de capitais não é perfeita, há a necessidade então de se fazer o “controle abrangente de capitais”?

Então, a sua crítica equivocada ao modelo que utiliza a contração fiscal para possibilitar a redução da taxa de juros e depreciar o câmbio, é antes de tudo uma autocrítica. Reconheceu a contradição do seu argumento.

O Fundo de Estabilização só se torna interessante se for precedido por acúmulos de superávit nominal, e o esforço para a obtenção deste acúmulo é capaz de permitir a resultados interessantes sobre os juros e o câmbio. Não é dito que o senhor esqueceu-se do superávit, o debate é se o ajuste fiscal necessário para constituir o fundo não o tornaria supérfluo.

E quanto à afirmação do Pastore sobre a eficácia das intervenções esterilizadas, fica claro que ele fala em redução da velocidade da valorização cambial e não em reversão da tendência do câmbio, que é a discussão central. Não se pode concluir dali nada em favor da administração do câmbio ou controle de capitais. Aliás, ele ressalta o contrário disto.

E agora que o senhor está assistindo a casa cair, consegue criar uma das coisas mais absurdas que eu já vi.

O senhor inverteu o sentido em que é entendida a palavra ortodoxia. Discutir isto não salva em nada a sua proposta de fundo de estabilização, mas só ilumina o caminho absurdo que o senhor tomou, ao seguir pelo lado negro da força.

O senhor está utilizando do método que condena: desqualifica o oponente e não responde aos argumentos. Finalmente saiu do papel de eterna vitima, a viúva que vive lamentando porque Keynes não vive mais entre nós (aliás, vocês usam o Keynes como avalista de cada idéia mirabolante…).

O pensamento neoclássico prescinde da categoria “ortodoxia”. Nenhum postulado, teorema ou princípio da teoria neoclássica depende do conceito de ortodoxia. E muitas pesquisas que eram tachadas como heterodoxas foram tranquilamente absorvidas pela teoria neoclássica.

Mas o parâmetro para se avaliar o que é ortodoxia, caro Lord Sith, não é nenhuma tradição histórica milenar, ordem jedi, guerras clônicas ou ser “maioria” e “minoria”, e sim o “status quo” no presente.

O que foi ortodoxia no passado não necessariamente é ortodoxia hoje. Basta ler Kuhn, Popper ou Lakatos para ver como teorias surgem e se vão, pois toda verdade é sempre provisória.

Pode existir ortodoxia e heterodoxia mesmo no interior de grupos que não sejam predominantes na ciência. Por exemplo, existe o pensamento marxista ortodoxo e o heterodoxo. No pensamento pós keynesiano há os verticalistas e os horizontalistas, etc.

É uma questão de identificação. Pergunto: qual é o “status quo” na ciência econômica atualmente e nos últimos 140 anos?

Como chamar, na história da ciência, esta interrupção de 140 anos no domínio dos “economistas clássicos” sobre a ciência econômica? Seria o conto de fadas da Bela Adormecida, e o senhor Oreiro seria o príncipe encantado que faria o pensamento clássico despertar reivindicando o trono da ortodoxia após 100 anos de sono?

Ortodoxia não é uma definição do que é ciência, é um adjetivo. O pensamento neoclássico se constitui como ortodoxia não por causa de qualquer herança histórica ou teórica, mas pelo espaço que ele ocupa na produção acadêmica e condução de política econômica.

Não é a toa que o pensamento neoclássico também é chamado de mainstream economics…

Mais do que ler qualquer livro de sociologia do conhecimento ou filosofia da ciência, o senhor deveria ler um dicionário primeiro e uma tabuada de somar depois. Entenderia o significado de ortodoxia, a que ele se refere e poderia contar a quantidade de economistas, departamentos, jornais, livros e medidas que se guiam pela teoria neoclássica.

Os números não são para mostrar quem é maioria ou minoria, e sim mostrar qual é o “status quo” na ciência econômica, qual escola tem predominância.

A “economia política clássica” pertence a um “status quo” ou paradigma que já foi superado na avançar da ciência econômica, mesmo que ainda sejam referências importantes.

Não há tradição reta. Há o “status quo” ou o “estado da arte” na ciência, e a partir disto se define ortodoxia. Se forem relativizar tudo, somos todos heterodoxos, em todas as ciências. Todo mundo pensa diferente de todo mundo.

O debate não se resolve com autoproclamação.

Não adianta reivindicar para si o título de ortodoxo. Se ortodoxia, como o senhor diz, quer dizer pensamento reto ou idéias retas, isto só mostra o que o senhor não tem: retidão nas idéias.

E lembre-se de que na tradição Sith (aqueles que se enveredam pelo lado negro da força), há apenas dois Sith: mestre e aprendiz. E o aprendiz sempre elimina o mestre.

Atenciosamente,

Rogerio Ferreira

Written by Rogerio Ferreira

18/10/2009 at 16:22