Autovetor

Uma economia simples

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Numa troca de email’s sobre economia, eu escrevi a seguinte estória para esclarecer os efeitos da inflação e da desvalorização cambial.

“Pense num país que é uma ilha e toda a produção da sua economia é derivada de um único produto:  o coco.
Os cocos e coqueiros fornecem fibras que são utilizadas para a confecção de roupas e placas que revestem casas e carros. E o coco fornece uma pastilha de carvão superativado que permite a construção de motores e processadores de computador. E uma culinária saborosa é feita a partir do coco.

Mas como ninguém conhece este país, não há turistas para conhecerem suas belas praias (e mesmo quem achou o país, enjoou de tanto comer coco). O país não recebe receitas vindas do turismo. A ilha é auto-suficiente, e por isto não importa e nem exporta nada. E a população tem um controle de natalidade curioso: o coco tem o efeito de prolongar a vida e fazer nascer uma nova criança na medida que outra pessoa morre. A população não cresce.

Fundada a nossa República, vamos pensar em situações que poderiam tirar a felicidade de nossos felizes amigos.

Se um dia, por causa de uma nova doença, o país precise comprar vacinas da França, como poderá pagar, se ele não exporta nada e nem recebe turistas?  Como obter dólares para pagar pelas vacinas. Se elas não forem doadas, como nosso país poderá comprá-las?A saída é fazer alguma exportação e obter as receitas. Mas se a produção interna é suficiente apenas para o consumo interno, como poderá exportar alguma coisa? O país terá de produzir além do consumo interno. Uma saída é um aumento da produtividade. Este ganho de produtividade pode vir de duas alternativas. A primeira é com investimentos que elevem a tecnologia da produção e permitam o aumento da produtividade do trabalho e do capital. Mas isto levaria tempo e as pessoas estão morrendo hoje.

A outra saída seria uma mágica que criaria este ganho de produtividade da noite para o dia. O que é um ganho de produtividade? Não é produzir mais com um custo menor? Então, como seria possível obter este ganho de produtividade? Os custos de produção industrial já estão dados, e seus preços se alteram com a dinâmica do mercado, onde eu posso atuar então? Você cria inflação! (Ou a mesma coisa: desvaloriza o câmbio!). Como assim? Você precisa criar um excedente exportável, mas a produção interna só dá conta do consumo interno. Então, a inflação tem o seguinte efeito: ela aos poucos vai reduzindo o valor real dos salários, já que o salário irá comprar cada vez menos. Mas como os produtos terão seus preços reajustados antes dos salários, o custo com os salários diminui. Ou seja, o  custo menor de salários provoca um “ganho”  produtividade.

Mas como este ganho de produtividade vira excedente exportável? Com o salário comprando cada vez menos devido à inflação, a população terá seu consumo reduzido. A diferença entre a produção total e consumo reduzido pela inflação é o excedente que poderá ser exportado. A população comprará menos devido à inflação, criando uma produção excedente que será exportado (supondo que o mundo queira comprar os produtos da ilha). Mas e se a ilha quisesse não sofrer inflação, como ela poderia ter o aumento de produtividade? Ela teria de fazer investimentos. E se  tudo se origina do coco, e a produção é apenas o suficiente para o consumo interno, eles precisariam que os cocos que vão para o consumo pessoal virem máquinas, ou seja, as pessoas precisariam consumir menos e poupar mais. A ilha precisa que os cocos destinados a fazer bens de consumo sejam destinadas à fabricação de máquinas e novas técnicas de produção.

Sem a poupança (redução no consumo do coco) não há liberação de coco que viabilizará o investimento. Aqui fica a seguinte questão: que mecanismos poderiam ser adotados para incentivar a poupança interna? E como fazer para atrair poupança externa?”. E um ponto importante que surgiu depois: a inflação e a desvalorização cambial tem um efeito perverso sobre a distribuição de renda e usurpa a poupança das famílias mais pobres.

Written by Rogerio Ferreira

01/11/2010 at 23:37

Reforço do BNDES custa até R$ 14 bi ao Tesouro

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Alexandre Rodrigues e Fernando Dantas

O Estado de S. Paulo – 07/12/2009

Esse é o custo anual do empréstimo subsidiado de R$ 100 bilhões que o governo cogita fazer ao banco estatal

O custo fiscal anual dos empréstimos do Tesouro ao BNDES, caso se confirme mais um aporte de R$ 100 bilhões, deverá variar entre R$ 5,2 bilhões e R$ 13,8 bilhões, segundo cálculos do economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Almeida acha que, provavelmente, o valor deve se situar próximo a R$ 10 bilhões, o que equivale a 85% dos recursos programados para o Bolsa-Família em 2009, de R$ 11,9 bilhões.

O economista é favorável à política industrial, mas acha que faltam clareza nos objetivos e transparência nos custos do ampliado papel do BNDES. Para calcular o custo dos empréstimos do Tesouro ao BNDES, ele partiu da cifra de R$ 237,5 bilhões, que inclui os R$ 137,5 bilhões emprestados até agosto com o possível novo aporte de R$ 100 bilhões.

Mansueto analisou a composição da remuneração que o BNDES dará ao Tesouro, na qual predomina a indexação à TJLP, com o custo do Tesouro para captar o dinheiro que empresta ao banco.

Em recente nota técnica, ele esmiuça questões metodológicas para se fazer esse cálculo, cujo resultado muda se for considerada ? como custo de captação do Tesouro ? a Selic, de curtíssimo prazo, ou títulos de longo prazo da dívida pública. No primeiro caso, tem-se o piso da diferença entre o custo e a remuneração do Tesouro, de R$ 5,2 bilhões e, no segundo, o teto de R$ 13,8 bilhões. “O fortalecimento do BNDES tem um custo, que não é pequeno, e que deveria ser explicitado pelo Tesouro Nacional; o banco deveria mostrar qual o benefício do uso desse dinheiro.”

Ele nota ainda que a política de formação de grandes grupos empresariais no Brasil, abraçada pelo BNDES, não está voltada para a diversificação dos investimentos daqueles conglomerados, nem inclui condicionalidades, como metas de exportação ou de investimento em pesquisa e investimento. Para Almeida, esses são elementos que já constaram da célebre política industrial sul-coreana, na qual ele vê mais méritos do que naquela hoje praticada no Brasil.

“Quando se vê a taxa de investimento por setor e os dados da balança comercial nos últimos 12 anos, a atuação do BNDES parece estar consolidando a nossa atual estrutura industrial, e não modificando-a”, diz. Assim, ele não vê sinais de uma política industrial que aumente o valor agregado das exportações ou aumente os investimentos em setores mais avançados tecnologicamente. “Estamos consolidando a nossa estrutura produtiva de hoje, que é a mesma de 12 anos atrás.”

Já para o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp, a agilidade e a imensa capacidade de desembolsos torna o BNDES naturalmente o instrumento preferido do governo para intervir na atividade econômica. Ele ressalva, porém, que é preciso ter outras fontes. “O governo está parado na busca de alternativas de investimentos. Como é muito difícil fazer isso, ainda não definiu um caminho. Mas é preciso encarar o problema.”

Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, ele acha que o governo deveria aproveitar o atual patamar da taxa básica anual de Juros (Selic) a 8,75%, próximo aos 6% da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) do BNDES, para estimular os bancos privados a disputarem os grandes financiamentos. “Com spreads numa média de 3,5%, o BNDES não está fazendo concorrência predatória”, diz. Para ajudar, ele acha que o Banco Central poderia elevar o limite de uso dos depósitos compulsórios em financiamentos longos.

Para ele, a diversificação da carteira do BNDES não preocupa e sim o seu protagonismo. “O BNDES não é o problema, é a solução. E temos de dar graças a Deus por tê-lo agora. Há muito tempo o BNDES é chamado a múltiplos objetivos. O banco faz isso bem, sem prejudicar sua ação na política industrial.”

“Não adianta ficar discutindo o tamanho do BNDES, mas a falta de alternativa. Como ele é sozinho, vai sempre precisar de uma tonelada de recursos. É preciso criar incentivos para o mercado de capitais e para os bancos entrarem no crédito de longo prazo”, conclui.

Written by Rogerio Ferreira

09/12/2009 at 10:28

Restrições frouxas

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Rogério L. Furquim Werneck*

O Estado de S. Paulo – 27/11/2009

János Kornai é um nome bem conhecido entre economistas. Trata-se de um eminente economista húngaro que, trabalhando em seu país durante quatro décadas de regime comunista – de início, como entusiasta do regime, posteriormente, como crítico -, conseguiu angariar amplo respeito acadêmico no Ocidente. Em meados dos anos 80 tornou-se professor titular de Harvard. Tem hoje mais de 80 anos. E continua ativo.

Willem Buiter publicou em seu blog no Financial Times – blogs.ft.com/maverecon – um instigante artigo em que Kornai usa sua ideia de síndrome de restrição orçamentária frouxa para analisar desdobramentos da crise financeira com que vem se debatendo a economia mundial. O conceito de restrição orçamentária frouxa tornou-se tão disseminado que hoje parece trivial. Na verdade o termo foi cunhado há cerca de 30 anos por Kornai para ajudar a entender distorções geradas pelo sistema de incentivos então vigente nas economias socialistas. (O leitor interessado em mais detalhes poderá recorrer ao artigo principal do Journal of Economic Literature de dezembro de 2003.)

O termo se contrapõe, claro, à restrição orçamentária rígida. Funcionam sob restrição orçamentária rígida organizações cujos gestores têm consciência de que não poderão contar com o respaldo de outras organizações para cobrir posições deficitárias. A distinção relevante, contudo, como bem salienta Kornai, não é o contraste extremo entre a restrição completamente rígida e a restrição totalmente frouxa. O que importa são os tons de cinza. As situações intermediárias em que vigora certo grau de frouxidão na restrição orçamentária, quando gestores passam a jogar com a possibilidade de vir a contar com a cobertura do déficit por outras organizações em determinadas circunstâncias.

Até esse ponto, a ideia de restrição orçamentária frouxa e dos comportamentos distorcidos que pode desencadear parece acomodável dentro do que se costuma rotular de risco moral (moral hazard). Mas Kornai trabalha com a ideia mais ampla de síndrome de restrição orçamentária frouxa. Interessa-lhe não apenas o comportamento distorcido que pode ocorrer numa firma ou organização específica e isolada, mas o fenômeno mais complexo que pode advir de motivações e circunstâncias econômicas e políticas específicas que levem a um afrouxamento generalizado de restrições orçamentárias.

É exatamente isso que Kornai acha que vem agora ocorrendo, na esteira da crise financeira dos últimos dois anos. Desencadeou-se um processo complexo que lhe parece longe do fim. Acha que o afrouxamento generalizado de restrições orçamentárias que ganhou força com a crise não vai poder ser sustado tão cedo. A onda de operações de resgate ainda vai avançar muito antes de, afinal, perder força. E, como o afrouxamento deve continuar por um bom tempo, gestores de instituições financeiras, empresários do setor real e administradores de governos subnacionais estarão, todos, cada vez menos preocupados com custos e mais dispostos a assumir riscos que normalmente não assumiriam. O que, por sua vez, deve exacerbar as necessidades de resgate.

Tudo isso aponta para uma sobrecarga crescente e preocupante em cima dos que terão de arcar, em última análise, com a explosiva conta dos resgates sem fim: os governos nacionais e seus contribuintes.

Nesse quadro, é interessante constatar uma curiosa assimetria dos efeitos da crise sobre o Brasil. Em termos de redução do crescimento, o País parece ter sido de fato menos afetado que outras economias. O impacto não chegou a ser tão reduzido como o da “marolinha” prometida por Lula, mas tampouco foi tão devastador como o que se observou alhures. O que, sim, em contraste, chegou ao País como verdadeiro vagalhão foi a onda de afrouxamento generalizado de restrições orçamentárias.

Pode-se dizer que esse desdobramento da crise foi até festejado pelo governo. Afinal, a crise lhe deu a oportunidade, que em condições normais jamais teria, de tentar legitimar mudanças bruscas e fundamentais no regime fiscal e nas relações entre o Estado e a economia. Mudanças que já deram lugar à rápida deterioração das contas públicas, à vertiginosa expansão do crédito estatal e à montagem de uma operosa bateria de guichês de favores em Brasília, para ampla distribuição de benesses creditícias e tributárias aos amigos do Rei. Não é pouco.

Written by Rogerio Ferreira

27/11/2009 at 12:42

Entrevista Samuel Pessoa ao Valor Economico (23/11)

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Ambição com o pré-sal pode virar desastre, diz Pessôa

Valor Econômico – 23/11/2009

Conjuntura: Financiamento do modelo deve apreciar mais o câmbio

Cristiano Romero, de Brasília

A ambição do governo Lula de tornar o Brasil autossuficiente na fabricação de equipamentos para a indústria petrolífera pode contribuir para a desindustrialização, uma ameaça que o país já vem sofrendo por causa da valorização do real frente ao dólar. Como o Brasil não dispõe de poupança doméstica para financiar esse plano, terá que importar capitais, contribuindo ainda mais para a apreciação do câmbio. Investimentos de setores industriais tradicionais serão deslocados para o setor petrolífero, mais rentável, tornando a economia brasileira dependente de importações.

Esta pode ser a receita para o desastre, na opinião do economista Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas. O risco de “doença holandesa” é real e muito grave, adverte ele. “Já houve muito subsídio para internalizar a cadeia do petróleo no Brasil. A Petrobras é uma empresa líder de tecnologia que vai a qualquer outro lugar do mundo e compete com sucesso. Já houve tempo suficiente para essa indústria se estabelecer. O que aprendemos a fazer, nós sabemos; o que não foi feito aqui é porque não temos condições de fazer”, opina o economista.

Pessôa sustenta que não faz sentido querer investir em áreas intensivas em fatores de produção que o Brasil não possui. Um desses fatores é educação de qualidade, como tem a Coreia, um fabricante competitivo de equipamentos para a indústria do petróleo. “A gente não faz a lição de casa, tem uma escola pública muito ruim e, por outro lado, quer investir em setores que não são os nossos naturais porque não temos fatores de produção compatíveis com essa especialização produtiva. Então, ao fazer isso, vai gerar uma pressão sobre os recursos da economia.”

O Brasil é um país que tem câmbio apreciado porque consome muito e economiza pouco. Para crescer, é obrigado a importar poupança, num processo que valoriza o real frente ao dólar. Além disso, opta pelo presente em detrimento do futuro. A persistir nessa direção, assistirá ao encolhimento do setor industrial e ao florescimento dos serviços. Daqui a alguns anos, se cumprir certas condições, vai se parecer mais com a Austrália do que com a China.

Estas são algumas das reflexões que Pessôa tem feito sobre o momento vivido pelo Brasil. Em entrevista ao Valor, ele fez um diagnóstico das escolhas feitas pelo país, avaliou seus efeitos e chamou atenção para os problemas que poderão surgir no horizonte, caso algumas opções recentes do governo não sejam revistas.

O economista do Ibre ensina que vigora no Brasil, desde a Constituição de 1988, um contrato social que prevê a oferta de um pacote de bem-estar à população. Esse pacote exigiu o aumento da carga tributária e se traduziu em investimentos em previdência, saúde e educação. O contrato começou a ser devidamente implementado no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1999) e prosseguiu na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Pessôa vê apenas uma “inflexão” nesse modelo. Nos últimos dois anos, o governo Lula decidiu investir pesadamente no aumento dos salários do funcionalismo e no desenvolvimento de uma política industrial agressiva, que privilegia a criação de empresas campeãs nacionais. “Sou muito cético à ideia de que, depois do 1,5% do PIB de aumento dos gastos com o funcionalismo, vá acontecer alguma diferença para melhor no Estado brasileiro”, pondera.

No contrato social adotado pelo país, não há espaço, diz ele, para o aumento do nível de poupança doméstica, que no Brasil é quase quatro vezes menor do que na China. “Tudo em economia tem uma dimensão de preço e uma de quantidade. Na quantidade, o nosso contrato social se expressa na baixa taxa de poupança doméstica. No preço, ele se expressa no câmbio valorizado. Estes são dois irmãos siameses”, sustenta Pessôa. “A gente vota a favor de um câmbio valorizado.”

O economista faz questão de não julgar o mérito desse contrato, diz que não o considera ruim, mas não se furta a criticar o que chama de “excrescências”. Uma delas são as regras para pagamento de pensão por morte. O Brasil gasta anualmente 3% do PIB com esse tipo de despesa, o triplo do que é gasto, em média, pelas economias da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Muitos países estão modernizando suas legislações nessa área. Por exemplo: em alguns lugares, para casais que trabalham e não possuem filhos, não há direito à pensão por morte. No Brasil, ao contrário, as regras são as mais generosas do mundo. “Não faz sentido uma pessoa de 70 anos se casar com uma de 20 e, depois, quando a de 70 morrer, gerar um passivo para o Estado de 60 anos porque aquela pessoa de 20 receberá pensão e viverá até os 80″, observa Pessôa.

Outra “excrescência da institucionalidade brasileira” é a existência de universidade pública gratuita. O fato de ser pública, diz o economista, é uma ideia interessante, mas a gratuidade não faz sentido. Essas distorções pressionam os gastos do governo, diminuem a poupança e geram um câmbio valorizado, o que, em última instância, provoca problemas na indústria. “Também faz parte do contrato social não mexer nessas questões.”

Uma sociedade que consome muito tem um padrão de absorção, diz Pessôa, viesado para o setor de serviços, ou seja, para o consumo de bens não-comercializáveis. O viés obriga a economia a deslocar fatores de produção da indústria para os serviços. A China, ao contrário, poupa muito – quase 50% do PIB – e consome pouco, favorecendo o desenvolvimento da indústria. “Uma forma de resolver isso é mudar o contrato social, aumentando a poupança aqui, mas acho que isso está fora da agenda. Teria que mudar o equilíbrio político”, comenta Pessôa.

Talvez, isto explique o fato de a classe política resistir à aprovação de medidas, como a reforma da previdência, que aumentariam o nível de poupança do país. Pensando nisso, o pesquisador do Ibre sugere ações alternativas para minimizar o problema da indústria. Uma delas seria recriar a CPMF e utilizar integralmente sua arrecadação – em torno de 1,5% a 2% do PIB – para desonerar a contribuição previdenciária da indústria de transformação. Isso ajudaria a baratear os bens produzidos no país, estimulando o seu consumo.

“Essa é uma possibilidade interessante de contrabalançar essa tendência de câmbio muito valorizado e, portanto, essa dificuldade de sobrevivência da indústria neste momento”, defende Pessôa. “A CPMF é um imposto melhor do que a contribuição sobre folha.”

O economista do Ibre não acredita que, no ciclo recente de crescimento do Brasil, tenha ocorrido um processo de desindustrialização. A indústria, na verdade, aumentou sua participação no PIB. O problema é que esse crescimento se deu em grande medida por causa da demanda por bens industriais das economias sul-americanas, que, por sua vez, cresceram nos últimos anos, puxadas pela crescente demanda da China por produtos primários. A dúvida é o que acontecerá daqui em diante.

Mesmo com a crise mundial, o parque industrial chinês segue crescendo a taxas elevadas. Neste ano, o país deve se transformar no maior produtor e consumidor de automóveis do planeta. O problema, assinala Pessôa, é o que vai acontecer com a indústria brasileira quando a China começar a vender carros no mercado latinoamericano.

“Aparentemente, já está começando a ocorrer uma substituição de manufaturas brasileiras por chinesas na região. Tenho até dúvida se, já no pós-crise, a recuperação da indústria brasileira não vai ser tão forte por causa da oferta chinesa”, adverte o pesquisador do Ibre. “Há um risco de a participação da indústria no PIB brasileiro cair muito rapidamente. Isto, sem o pré-sal.”

O petróleo abundante da camada pré-sal pode, na avaliação de Samuel Pessôa, agravar o problema da indústria, a depender das decisões tomadas pelo governo. O economista tem um opinião favorável, e rara, sobre o Congresso. Na sua opinião, o parlamento brasileiro é “razoável”, tem, “na média”, um bom nível intelectual e é integrado, também “na média”, por políticos bem-intencionados. Pessôa acredita que, na discussão do marco regulatório do pré-sal, prevalecerá o bem-senso e o país seguirá o modelo norueguês.

O risco, diz ele, são ideias que o governo vem defendendo, como a de desenvolver no país toda a cadeia produtiva do petróleo, tornando o Brasil autossuficiente na fabricação dos insumos dessa indústria. O país não dispõe de poupança para atender à ambição do governo, portanto, terá que importar capitais, contribuindo para valorizar o câmbio. Investimentos que antes seriam destinados a outros setores industriais passariam a ser canalizados para o setor petrolífero. Com o passar do tempo, este cresceria e o industrial não-petrolífero encolheria.

Pessôa não vê problema no fato de o Brasil optar por ser um país de alto consumo e baixa poupança. Como tem um futuro promissor, exigirá investimentos elevados, o que, nas circunstâncias mencionadas, provocarão déficits em conta corrente também altos. É possível, no entanto, a exemplo da Austrália, conviver com isso, desde que se cumpram três condições. A primeira delas é manter as contas do setor público sempre em ordem. Os déficits externos, enfatiza Pessôa, devem ser fruto de decisões privadas.

A segunda condição é ter um passivo externo líquido financiável – a dívida externa denominada em reais ou, se for em dólar, com hedge (proteção). A terceira é manter o regime de câmbio flutuante. A Austrália sobrevive, há 25 anos, com déficit externo anual médio de 4,5% do PIB. “O Brasil está no caminho certo. Está construindo reputação e acho que tem total possibilidade de possuir condições de financiamento externo iguais à da Austrália em dez anos. Se não dermos mais nenhum calote, se mantivermos os contratos e termos essas três condições, podemos nos financiar perfeitamente”, conclui o pesquisador do Ibre.

Written by Rogerio Ferreira

24/11/2009 at 21:03

Produtividade total dos fatores – emergentes (1994-2008)

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The Economist 12/11/09

Gráfico mostrando estimativa do crescimento da produtividade total dos fatores entre 1994-2008 em vários países.

Written by Rogerio Ferreira

20/11/2009 at 23:49

Câmbio alto é a solução?

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Marcio Garcia

Valor Econômico – 20/11/2009

Afirmou o ministro da Fazenda: “… com um câmbio a R$ 2,60, venceríamos todos. Venceríamos os chineses, a indústria coreana” (O Globo, 18/11/2009, página 21). O tom transcendente em que tal frase foi proferida, em um encontro de industriais, parecia conferir ao câmbio alto (depreciado) status semelhante ao da paz entre os homens ou ao do fim da fome; ninguém poderia ser contra tal objetivo. O câmbio depreciado é mesmo tão bom para a economia brasileira?

Isoladamente, o câmbio depreciado parece ótimo, pois amplia as exportações, a produção, o emprego e os lucros dos exportadores (ainda que esse aumento seja sempre esquecido quando empresários defendem o câmbio alto). O problema é que nada em economia, como na vida, ocorre isoladamente. Há sempre uma miríade de relações de causa e efeito entre variáveis econômicas que podem gerar, e frequentemente geram, resultados indesejáveis a partir de ações bem intencionadas.

Em primeiro lugar, cabe indagar como o governo poderia empurrar a taxa de câmbio para cima. A forma tradicional de desvalorizar a taxa de câmbio é o governo, normalmente via Banco Central (BC), comprar dólares até que o preço da moeda (a taxa de câmbio) suba ao nível pretendido. A contrapartida da compra de dólares pelo BC, que leva à depreciação da taxa de câmbio, é o aumento da base monetária e a diminuição da taxa de juros. Mas, a sistemática de metas para inflação, usada no Brasil, requer que se mantenha a taxa de juros em níveis próximos à meta Selic fixada pelo Copom, sob o risco de elevar a inflação. Assim, para impedir a queda da taxa Selic, com consequente aumento da inflação, o BC esteriliza o aumento da base monetária, via operações contracionistas de mercado aberto (venda de títulos públicos). A esterilização torna a compra de dólares pelo BC muito menos eficiente em desvalorizar o câmbio. Por isso, países que controlam a taxa de câmbio normalmente praticam, ao menos parcialmente, intervenções não-esterilizadas.

O problema é que a prática frequente de intervenções não-esterilizadas não é compatível com nosso regime de política monetária. Será que queremos abrir mão do regime de metas para inflação para voltarmos a um regime de câmbio administrado? Se a proposta for essa é necessário haver ampla discussão, informada por debates técnicos que esclareçam ao público os possíveis efeitos de tal mudança, sobretudo quanto à inflação futura. O que não se pode fazer é escamotear o abandono do sistema de metas de inflação caso se decida por intervenções não-esterilizadas.

Mas, por que a depreciação do câmbio poderia provocar inflação? A resposta pode ser vista por dois ângulos diferentes, mas umbilicalmente interligados: o dos preços e o das quantidades. É intuitivo o efeito que tem a depreciação do câmbio sobre os preços dos bens importados, majorando os preços internos. Menos intuitivo, mas igualmente importante, é o fato de que o câmbio depreciado torna os bens que exportamos, cujos preços são fixados em moeda estrangeira, mais caros em reais. Assim, tais bens também ficam mais caros internamente, como é o caso da carne, do açúcar, da soja e muitos outros.

A ótica das quantidades provê visão alternativa complementar. A depreciação cambial aumenta as exportações e diminui as importações. Ou seja, aumenta o PIB. Isto é desejável, mas até certo ponto. Caso o aumento das exportações leve o PIB para acima da capacidade produtiva da economia, o PIB potencial, a inflação se acelerará. Naturalmente, o PIB potencial também cresce. Mas, o crescimento do PIB potencial depende da taxa de investimento da economia, que, no Brasil, é muito baixa. Além disso, como tem salientado Affonso Celso Pastore, há uma relação muito alta entre importações e investimento. Nos períodos de câmbio apreciado ocorre muita importação de máquinas e equipamentos, fundamentais para a difusão de inovações tecnológicas com impactos positivos sobre a produtividade.

Mas a China não mantém uma taxa de câmbio artificialmente depreciada e é o país que mais cresce no mundo, sem inflação? Por que não podemos fazer o mesmo? Há, certamente, muitas diferenças entre a economia chinesa e a brasileira. Mas, a diferença mais relevante, no que tange à possibilidade de intervir na taxa de câmbio, aumentando as exportações e o crescimento do PIB, sem causar muita inflação, parece ser a elevadíssima taxa de poupança da economia chinesa. Como a taxa de poupança da China é mais do que o dobro da do Brasil, nosso espaço de manobra é muito mais reduzido. Basta olhar o que ocorreu com a Argentina, que tentou fazer política monetária com objetivo de manter o câmbio alto. Voltou a ter sério problema inflacionário, mascarado por estatísticas oficiais manipuladas nas quais ninguém acredita.

O aumento da taxa de poupança da economia brasileira é fundamental, não para podermos interferir no câmbio flutuante, mas para permitir maiores taxas de investimento e crescimento econômico. Para aumentar essa taxa, a maior contribuição que a política econômica poderia dar seria a de reduzir o forte crescimento do dispêndio público. A diminuição do crescimento do gasto público também ajudaria a depreciar a taxa real de câmbio. Infelizmente, desde 2005, o governo deixou de lado qualquer pretensão de controlar seus gastos e abraçou insensato programa de expansão dos gastos públicos de custeio, não havendo mais esperança que tal rumo seja mudado até 2011.

Mas nossos “policy-makers” permanecem sob forte pressão para “resolver” a questão cambial. Algumas medidas, como o IOF sobre entradas de capitais, estão sendo implementadas. Tais medidas não devem ter efeitos substanciais sobre a taxa de câmbio, embora tenham efeitos nocivos sobre o custo de capital das empresas, prejudicando o investimento produtivo. Medidas de liberalização cambial são boas “per se”, mas tampouco é claro que, se adotadas, causem significativa depreciação.

A pressão sobre o BC para desvalorizar o câmbio se parece com a do paciente que questiona seu médico: “Dr., sei que estou gordo, tenho vida sedentária, muito estresse, fumo e bebo. Não quero mudar isso. Mas quero um jeito de manter boa saúde.” O final desse filme é conhecido. Mudança de médico. Aí é que mora o perigo!

Márcio G. P. Garcia, PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve mensalmente às sextas-feiras

Written by Rogerio Ferreira

20/11/2009 at 10:56

O poder de Pequim

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Folha de S. Paulo – 19/11/2009

A PRIMEIRA visita à China do presidente dos EUA, Barack Obama, chegou ao fim sem que o principal tema de divergência entre os dois países tenha conhecido qualquer avanço. O governo americano busca convencer Pequim da necessidade de abrir mão de um dos elementos centrais de sua política econômica: o enfraquecimento forçado da moeda chinesa, o yuan, atrelado ao dólar.

Ao aferrar-se a tal mecanismo, o governo chinês procura manter intocado, mesmo após a crise econômica mundial, o seu modelo de crescimento baseado em exportações. Com o yuan fraco em relação a outras moedas, seus produtos se tornam mais baratos e competitivos mundo afora.

Do ponto de vista dos prejudicados por essa política -as indústrias de outros países-, a situação vem se agravando desde o ano passado. Para tentar reanimar a própria economia, o banco central dos EUA zerou a taxa básica de juros, inundando o planeta de dólares. Assim, também as exportações americanas se beneficiaram com o barateamento relativo do dólar e, consequentemente, de seus produtos.

Mas o que a visita de Obama explicita é que medidas autônomas dos EUA já não são suficientes para gerir sua própria economia. A peregrinação de autoridades americanas ao país asiático explicita o novo balanço de poder global, e sua frequência deve aumentar nos próximos anos.

O modelo cambial chinês limita a eficácia da política monetária dos EUA -mais ainda se vier a ser copiado por outros países. Cabe indagar se a continuidade desse atrelamento entre dólar e yuan é do interesse de Pequim, pois o sistema só funciona quando a máquina de consumo e endividamento das famílias americanas funciona a pleno vapor.

Se os prognósticos acerca de uma recuperação lenta nos EUA se concretizarem, uma inflexão “para dentro” da economia chinesa será inevitável.

Written by Rogerio Ferreira

19/11/2009 at 16:27

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